terça-feira, 4 de novembro de 2014

Keynes e suas simpatias pelos "experimentos" do nazismo e do fascismo

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Outras razões para se pôr em dúvida o liberalismo de Keynes se devem à sua atitude, nas décadas de 1920 e 1930, com relação aos "experimentos" ocorridos no continente europeu no campo da economia planejada. Sobre as políticas econômicas do nacional-socialismo alemão e do fascismo italiano, Keynes por diversas vezes manifestou um ponto de vista surpreendente para alguém considerado um modelo de pensador liberal. Nesse particular, estão em questão dois textos: o prefácio à edição alemã de A Teoria Geral (Keynes 1973b, pp. xxv–xxvii) e o ensaio "National self-sufficiency" (Keynes 1933; também incluído em Keynes 1982a, pp. 233–46).
No prefácio, Keynes afirma que está se desviando da "tradição inglesa clássica (ou ortodoxa)", a qual — como observa — jamais prevaleceu por completo no pensamento alemão. "Tanto a Escola de Manchester quanto o marxismo derivam em última instância de Ricardo. ... Mas na Alemanha sempre houve amplos setores da opinião que não aderiram nem a um, nem a outro. ... Talvez, portanto, eu possa contar com uma menor resistência da parte dos leitores alemães do que da parte dos ingleses ao oferecer uma teoria do emprego e da produção como um todo, a qual apresenta divergências da tradição ortodoxa em pontos importantes" (1973b, pp. xxv–xxvi).
Para seduzir ainda mais os leitores da Alemanha nacional-socialista, Keynes acrescenta: "Os exemplos e as explicações de boa parte do livro a seguir remetem principalmente às condições vigentes nos países anglo-saxões. Não obstante, a teoria da produção como um todo, que é o que este livro tenciona oferecer, se adapta muito mais facilmente às condições de um estado totalitário, e não às condições de livre concorrência e uma grande medida de laissez-faire." (1973b, p. xxvi).
Roy Harrod não menciona o prefácio em sua antiga biografia de Keynes (1951).[1]  Robert Skidelsky alude a sua "redação infeliz", e deixa por isso mesmo (1992, p. 581). Alan Peacock escreve a respeito da passagem (sem reproduzi-la) na qual Keynes menciona "que o governo alemão (nazista) à época seria mais simpático às suas ideias sobre o efeito das obras públicas na criação de empregos do que o governo britânico" (1993, p. 7). A interpretação, contudo, vai de encontro ao sentido evidente do texto: não é que os líderes nazistas fossem, por acaso, mais simpáticos a uma das propostas de Keynes em especial, mas sim que, na opinião de Keynes, sua teoria "se adapta muito mais facilmente às condições de um estado totalitário". Peacock ainda diz que "há controvérsias quanto ao prefácio ter sido traduzido corretamente ou não". Mas essa controvérsia em nada influi no trecho aqui reproduzido, já que ele foi extraído do manuscrito inglês de Keynes.[2]
Com frequência, economistas da Alemanha nazista faziam referências a Keynes com o intuito de defender as políticas econômicas ostensivamente antiliberais do nacional-socialismo. Otto Wagener, que tinha chefiado um departamento nazista de pesquisas econômicas antes da tomada do poder, deu a Hitler uma cópia do livro de Keynes sobre dinheiro por considerá-lo "um tratado bem interessante", o qual transmitia a sensação de que o autor estava "bem adiantado e vindo em nossa direção mesmo sem estar familiarizado conosco, nem com nosso ponto de vista" (citado em Barkai 1977, pp. 55, 57, 156).  
O lançamento da edição alemã de A Teoria Geral foi recebido com críticas veiculadas em publicações que tinham conseguido guardar alguma distância das políticas econômicas nazistas oficiais, ao passo que um apologista nazista na cidade de Heidelberg saudou-o "como a justificação do nacional-socialismo". O próprio Keynes comentou que as autoridades alemãs haviam permitido a publicação "em um papel [que era] um tanto melhor que o de costume, a um preço não muito acima que o de costume" (ambas as citações em Skidelsky 1992, pp. 581, 583).
Um exemplo ainda mais relevante das dificuldades de classificar Keynes como um liberal é seu ensaio "National self-sufficiency" (Keynes 1933, 1982b, pp. 233–46).[3] Nele, o laissez-faire e o livre mercado são tratados com o desdém característico do Círculo de Bloomsbury. No passado, haviam sido vistos "quase que como uma parte das leis morais", compondo o "fardo de enfeites obsoletos que o espírito carrega para lá e para cá" (Keynes 1933, p. 755). Bem diferente, no entanto, é a posição de Keynes com relação a doutrinas extremamente populares à época em que escreveu. "A cada ano fica mais evidente que o mundo está embarcando em uma série de experiências político-econômicas" à medida que os pressupostos do livre mercado do século XIX são postos de lado. E quais são essas "experiências"? Aquelas em curso na Rússia, Itália, Irlanda (sic) e Alemanha. Até a Grã-Bretanha e os Estados Unidos têm se empenhado em adotar "um novo plano" (p. 761).
Keynes é estranhamente agnóstico com relação às chances de sucesso desses vários projetos: "Não sabemos quais serão os resultados. Imagino que todos nós estejamos prestes a cometer muitos erros. Ninguém é capaz de dizer qual dos novos sistemas comprovará ser o melhor. ... Cada um de nós tem sua preferência. Não acreditando que já estejamos salvos [sic], cada um de nós gostaria de ter uma chance de encontrar um caminho para a própria salvação" (pp. 761–62).
Ele admite que "no que diz respeito aos pormenores econômicos, em contraste aos controles centrais", prefere "manter privado o máximo possível de decisão, iniciativa e empreendimento" (p. 762). Contudo, "na medida do possível, não podemos estar sujeitos à influência das mudanças econômicas ocorridas em outros lugares, para podermos proceder às experiências de nossa preferência com vistas ao ideal de república social do futuro" (p. 763).
À época em que Keynes escreveu esse artigo, era costume associar a doutrina da "auto-suficiência nacional", que ele pregava, ao nacional-socialismo e ao fascismo. Quando Franklin Roosevelt atacou a conferência econômica de Londres, em junho de 1933, o presidente do Reichsbank, Hjalmar Schacht, declarou ao Völkischer Beobachter(jornal oficial do Partido Nazista), em tom presunçoso, que o líder norte-americano tinha adotado a filosofia econômica de Hitler e de Mussolini: "Tomando nas próprias mãos as rédeas de seu destino econômico, você ajuda não apenas a si mesmo, mas ao mundo inteiro" (Garraty 1973, p. 922).
Keynes admite que muitos desacertos estão sendo cometidos em todas as tentativas de planejamento ao redor do mundo.  Embora Mussolini possa estar "adquirindo prudência e bom senso", "a Alemanha anda à mercê de irresponsabilidades desenfreadas — embora seja cedo demais para julgá-la."[4] Ele reserva suas críticas mais severas à Rússia de Stalin, exemplo histórico talvez sem precedentes de "incompetência administrativa e do sacrifício de quase tudo que faz a vida valer a pena em nome de cabeças-duras" (p. 766). "Que Stalin sirva como um exemplo pavoroso para todos que tentarem realizar experiências", declara Keynes (p. 769).
Contudo, sua crítica a Stalin — que até então já havia condenado à inanição milhões de pessoas na Ucrânia, e que enchia de outros milhões os gulags de Lênin — é curiosamente oblíqua e excêntrica.  O que a experiência socioeconômica soviética, juntamente com as demais, necessita acima de tudo é de uma "crítica audaciosa, livre e desapiedada".  Mas
Stalin eliminou todas as mentes criticas e independentes, mesmo aquelas que, em geral, lhes eram simpáticas.  Ele produziu um ambiente no qual os processos mentais são atrofiados. Os suaves espasmos do cérebro ficam enrijecidas. A vociferação multiplicada dos alto-falantes substitui as delicadas inflexões da voz humana. Os berros da propaganda aborrecem até os pássaros e animais do campo, induzindo ao estupor. (p. 769)
"Cabeças-duras... cérebros enrijecidos... aborrecimento... estupor". O leitor pode julgar por si mesmo se essa crítica — parecida com a insistência com que John Stuart Mill repisava a suma importância das discussões e debates intermináveis — é apropriada aos malfeitos praticados por Stalin e pelo poderio soviético a partir de 1933.
Por fim, uma passagem do ensaio, como consta da primeira versão, no Yale Review, é omitida em The collected writings:[5] "Mas exerço minhas críticas como alguém de coração amistoso e simpático às experiências desesperadas do mundo contemporâneo, alguém que lhes quer bem e que deseja seu sucesso, alguém que tem em vista suas próprias experiências e para quem, em última instância, não há no mundo o que não seja preferível àquilo que os relatórios financeiros costumam chamar de 'a melhor opinião de Wall Street'" (Keynes 1933, p. 766).
O comentário de Skidelsky a respeito do ensaio é lacônico e irrelevante: "Como observou Keynes, nos artigos 'National self-sufficiency' [o ensaio foi publicado em duas partes na revista The New Statesman and Nation], as experiências sociais estavam na moda; independentemente da procedência política, todas tinham em vista um papel bastante dilatado para o governo e um papel extremamente restrito para o livre comércio" (1992, p. 483). Nem de longe essa descrição parece suficiente.
Durante as décadas de 1920 e 1930, a insistência de Keynes nas maravilhas dos "experimentos" da engenharia social acabou se tornando quase risível. Outro exemplo consta do ensaio "The end of laissez-faire" no qual ele escreve: "Eu critico o socialismo de estado doutrinário não porque ele procure mobilizar os impulsos altruístas dos homens em prol da sociedade, nem porque se afaste do laissez-faire, nem porque exclua a liberdade natural do homem de se tornar milionário, nem porque tenha a coragem de promover experiências audaciosas. Todas essas coisas eu aplaudo" (1972, 290, grifo meu).
A esta altura, a pergunta que fica é: como pode alguém que expressou uma ávida simpatia pelos "experimentos" de nazistas, fascistas e comunistas stalinistas, e que reservava zombarias triviais ao livre funcionamento da sociedade do laissez-faire, ser considerado um exemplo acabado de liberal, se é que se pode chamá-lo de liberal?[6]

No próximo artigo, as ligações de Keynes com proeminentes comunistas.


[1] Em extensa nota de rodapé, Michael Heilperin comenta a ausência de referências a esse prefácio na obra de Roy Harrod (1951), maior biógrafo de Keynes à época em que Heilperin escreveu. Em vista da repressão à liberdade acadêmica e a outras liberdades, na Alemanha nazista, Heilperin chama o lisonjeiro texto de Keynes de "mancha indelével em seu histórico de liberal" (1960, 127 n. 48).
[2] A discussão envolve algumas frases que constam da edição alemã, mas não do manuscrito de Keynes; contudo, não parece que essas frases incriminem ainda mais o autor, a não ser pelo uso da expressão "eminente liderança nacional [Führung]", com conotação positiva. Seja como for, é provável que Keynes aprovasse os acréscimos. Ver Schefold 1980.
[3] A versão constante em The collected writings é das edições de 8 e 15 de julho de 1933 da revista The New Statesman and Nation. Contudo, primeiro o ensaio foi publicado na revista Yale Review. As citações que fazemos aqui são desta segunda versão, Keynes 1933. Heilperin afirma que, "em vista de sua brevidade, [esse ensaio] pode ser considerado um dos textos mais significativos de Keynes" e comenta que o autor minimiza o caráter totalitário dos regimes em discussão: "Estavam fazendo uma experiência — e é isso que torna maravilhosas as coisas!" (1960, 111). Aqui, Heilperin consegue captar o espírito fundamental desse trabalho e das ideias de Keynes ao longo de muitos anos.
[4] Essa e outras críticas à Alemanha nazista foram omitidas da tradução alemã, evidentemente que com a permissão de Keynes; ver Borchardt 1988. Embora ciente da versão da Yale Review, Borchardt prefere citar o ensaio de The collected writings, desse modo superestimando seu teor liberal.
[5] Este trecho deveria constar de The collected writings depois de "Pois não se pode esperar que eu aprove todas as coisas que hoje são feitas no mundo político em nome do naturalismo econômico. Longe disso." (Keynes 1982b, 244). Do mesmo modo, a versão em The collected writings omite alguns outros trechos, de pouca importância, que aparecem na Yale Review. Não se vê nenhuma indicação, por parte do editor da compilação, de que a versão nela incluída seja diferente daquela publicada na Yale Review; além disso, ele identifica erroneamente a edição da revista, datando-a do "verão de 1933".
[6] Ao longo de sua carreira, Keynes foi um crítico incansável do princípio do laissez-faire. "The end of laissez-faire" (Keynes 1972, 272–294) é o título daquele que talvez seja o ensaio mais polêmico que escreveu. À época (1926), foi objeto de uma resenha de autoria do economista liberal italiano Luigi Einaudi (de modo algum um "doutrinário"), que comentou que o folheto não era exatamente original, nem era dotado de particular importância: a ideia de que ele representaria algum tipo de ponto histórico decisivo era "a mais pura fantasia" de críticos precipitados. Einaudi pergunta por que Keynes, "depois de ter voltado a pôr a regra do laissez-faire fora de combate, como princípio científico, não dedicou mais algumas páginas ao exame da importância que atualmente se atribui a essa regra, como norma prática de conduta? ... Será mesmo que a importância prática da regra do laissez-faire para a conduta dos homens é hoje menor que ontem?" Mesmo que as tarefas do governo tenham se tornado muito mais numerosas, essa concessão não "comprova a decadência da regra do laissez-faire, uma vez que é bem provável que, no mesmo período da ampliação da atividade pública e interferência em alguns setores da vida econômica, tenha ocorrido crescimento bem maior de novos tipos de atividade, nas quais o valor da antiga regra do laissez-faire ainda permanece intacto" (1926, 573).

membro sênior do Mises Institute, leciona história no Buffalo State College. É especialista em história da liberdade, na tradição liberal da Europa, e na relação entre guerra e ascensão do estado.

Fonte: http://www.mises.org.br/

5 mitos sobre a privatização que você provavelmente acredita

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Por Guilherme Dalla Costa (publicado originalmente emclubefarroupilha.com)

As privatizações no Brasil, assim como em qualquer outro lugar, são envolvidas de debates acalorados e ideológicos, onde um lado é acusado de entreguista, deentregar o patrimônio nacional, enquanto o outro possui, em geral, o monopólio da virtude. A questão, não é preciso dizer, é mais complexa do que isso. A intenção desse texto é apontar cinco pontos que mais geram discussão: a venda do patrimônio nacional, as estatais serem vendidas “a preço de banana”, as privatizações gerarem desemprego, elas prejudicarem o consumidor e, digno de um item a parte, o “roubo” do nióbio.
1. “Estão vendendo o que é nosso”
Quando alguém afirma que “o petróleo é nosso”, você deveria perguntar: e aonde está a minha gasolina de graça? A Petrobras, o “orgulho nacional”, não pode ser vendida – os recursos naturais são nossos! A coisa, é claro, não funciona assim. Primeiro, os recursos naturais pertencem ao governo, e quem aqui afirmar que o governo, com toda a corrupção, impopularidade e oposição, é nosso só pode estar delirante. Além do mais, se traçarmos a história das estatais brasileiras até sua criação, veremos que foram criadas, predominantemente, por ditaduras, senão ex-ditadores – é o caso da Petrobras, Vale, Telebras, COBRA, CSN e tantas outras. Se as estatais são do povo, por que elas foram criadas por gente que sequer foi escolhida por ele? É digno de risos dizer que o Estado represente o bem comum e defende nossos interesses, quem dirá suas crias!
Aceitemos então, leitor, que as estatais em si não nos pertencem. E quanto aos recursos que elas exploram? O ouro, o ferro, o petróleo, o nióbio estão em território nacional e portanto, nos pertencem, só precisando ser extraídos. A verdade é que todos esses recursos são tão nossos quanto o ouro de Minas Gerais era português. Apesar de eles existirem por si só e terem um preço no mercado internacional, eles não valem nada debaixo da terra, e que utilidade há em ter um subsolo rico e um “sobresolo” pobre?
A mineração de ferro da Vale foi de 100 milhões de toneladas anuais quando estatal para 300 milhões quando privada.
Entenda que a riqueza se dá em duas partes: o trabalho e o comércio. O trabalho é responsável pela extração do que antes não valia nada por estar debaixo do solo, e o comércio – a venda – nos dá uma compensação pelo que extraímos. Ter recursos naturais e não explorar é como ter um talento e não trabalhar: você pode ser o melhor músico do mundo, mas se não trabalhar para explorar esse talento e vendê-lo com shows, CDs e o que for, ele não vale absolutamente nada.
Qual o saldo final desse roubo? A Vale do Rio Doce pagou em impostos, em 2005, 2 bilhões de reais – três vezes o lucro dela quando estatal. Em 2011 foram 10 bilhões, além de 5,5 bilhões em salários e, com o aumento da produção, um fluxo de dólares para dentro do país. A empresa também investe sozinha 28 bilhões de reais, contra menos de 1 bilhão quando estatal. A CSN paga mais de um bilhão por ano. Se alguém “roubou nossas riquezas”, esse alguém foi o governo, ao escondê-las por tanto tempo.
2. Quanto vale a Vale?
Outro mito é de que vendemos nossas empresas “a preço de banana”. A Vale, por exemplo, foi entregue ao capital privado por menos 3,4 bilhões de dólares, sendo que hoje ela vale US$190 bilhões! Realmente ultrajante se visto de longe, mas pior ainda se visto de perto.
O que há para se ver de perto? Primeiro que é ridículo analisar o preço de uma companhia hoje com quando ela foi vendida. A Vale do Rio Doce valia, em 1997, por volta de 9 bilhões, com a estimativa mais otimista colocando o valor de mercado da empresa em 10,3 bilhões de dólares – valor usado pelo governo. Mais que isso: a venda do controle acionário foi acompanhada de uma transferência da estonteante dívida de 4 bilhões de dólares! 7,3 bilhões ainda parece pouco? Isso equivalia, na época, a 7,4 bilhões de reais. A inflação acumulada entre 1997 e 2014 foi 178,66%, o que corresponderia a 20.5 bilhões de reais atuais, dos 28 bilhões que a empresa valia. E quanto às reservas da Vale, a capacidade produtiva? A empresa tinha o lucro pífio de 756 milhões de reais – 49 vezes menos do que hoje -, e o ferro, maior fonte de receita da empresa, valia em 1997 apenas 17% do que vale hoje!
Evolução do preço do minério de ferro.
A Vale não só valia muito pouco como foi vendida por muito. E as outras empresas? A Embraer era deficitária, a Telebrás não possuía infraestrutura alguma, a CSN produzia quase nada e empresas como Fosfértil, Goiasfértil, Ultrafértil (!) e COBRA eram tão economicamente irrelevantes que você provavelmente nunca ouviu falar. A Telebrás foi vendida por 22 bilhões de reais e as licenças de operação para outras operadoras foram vendidas por 45 bilhões de reais. A Eletropaulo e outras companhias de distribuição elétrica foram vendidas por 22 bilhões de dólares. Bom seria se mais coisas por aqui tivessem esse precinho de banana.
3. “Perdi o emprego, a culpa é deles”
Outra estória contada por nacional-desenvolvimentistas, cepalinos e afins é a de que a desestatização das empresas gera desemprego. Gera? Gera, em um primeiro momento. Uma empresa que pouco lucra (se é que lucra), com material sucateado e afogada em dívidas precisa cortar pessoal não só por isso, mas pelos famosíssimos “cabides de emprego”. Toda a baixa produtividade da empresa por questões puramente tecnológicas se junta à típica ineficiência das pessoas que, tendo passado em um concurso, se contentam com a estabilidade do serviço público. No setor privado, porém, estabilidade se faz com trabalho duro, e quem não é bom o suficiente sai da folha de pagamento. A modernização é outro fator que gera desemprego. Se um funcionário com uma nova máquina trabalha por dois, não há por quê ter dois. A Vale, sempre um bom exemplo, perdeu mais de mil funcionários.
Mas e depois? Qual o saldo final, depois de décadas de governos desestatizadores? A Vale emprega, hoje, 119.00 funcionários; a CSN, 19.000. Após seis mil demissões as siderúrgicas do Vale do Aço, MG, empregam hoje 46.000 funcionários. A Embrar demitiu 4 mil funcionários dos 13 mil que possuía, e hoje contrata 17 mil pessoas. CSN, Açominas e Cosipas foram de 58 mil funcionários em 1989 para 43 mil em 1992. Hoje, as três empresas empregam 150 mil pessoas. Isso, é claro, são empregos relacionados apenas às estatais. A quebra do monopólio da Petrobras criou milhares de empregos, assim como a da Telebrás criou dezenas de milhares. A expansão da produção de ferro incentivou a indústria siderúrgica, a expansão da siderurgia impulsionou a da construção civil e automobilística que nós vimos na última década. Não menos relevante é o aumento da produtividade agrícola diante da desarticulação das estatais de fertilizantes, o que gerou empregos no complexo agro-industrial. Ganância não é vender empresas do governo. Ganância mesmo é ser contra a sua venda só para não perder o emprego ou ter que trabalhar mais.
4. “Bom mesmo era quando se mandava cartas”
Não se pode falar em privatizações sem falar na queda da qualidade dos serviços e no aumento dos preços. Um dos argumentos é o seguinte: a empresa do Estado cobra um determinado preço, e a privada cobra esse mesmo preço mais a sua margem de lucro. Até que ponto isso é verdade?
A alta do investimento estrangeiro coincide com a modernização e as desestatizações.
Podemos começar falando sobre a desestatização do setor de transporte ferroviário. A Rede Ferroviária Nacional, fundada em 1957, foi privatizada em 1996. Hoje, o número de acidentes caiu em 80% e o volume de carga transportado dobrou – isso sem falar que o setor foi de um prejuízo de 4 bilhões de reais anuais para um lucro de 2 bilhões! E isso é agora: entre 1997 e 2011 foram investidos 30 bilhões de reais na recuperação e expansão da malha ferroviária, e nós colheremos os frutos disso nos próximos anos. A América Latina Logística, muito presente no Rio Grande do Sul e a maior investidora, transporta hoje sete vezes mais do que em 1997!
Outro exemplo é o setor de energia. O governo controlava (e controla) o grosso da produção de energia nacional. O resultado? Em 2001 e 2002, após décadas de negligência, tornou-se frequente haver “apagões”. Tanto nesses anos quanto hoje, a culpa disso é predominantemente por falha da infraestrutura. A privatização de parte do setor elétrico acabou com isso, pois não era de interesse das distribuidoras que seu produto – a energia – deixasse de ser vendido. Hoje, com nova interferência do governo no setor de energia baixando a tarifa elétrica (que só beneficia realmente grandes indústrias) e dando subsídios – ou seja, dinheiro fácil, independente da qualidade do serviço – passamos novamente por um risco de blecaute. Coincidência?
O caso mais emblemático, porém, é o da comunicação. Ela foi muito mal feita, e nós substituímos um monopólio por um oligopólio. A Telebras cobrava caríssimo pelas linhas, demorava para instalar, o serviço era péssimo. Mesmo trocando um modelo sem competição por outro de pouca competição, a melhora nos serviços é imensurável. Se em 2002 o país possuía 1.7 milhão de linhas telefônicas, hoje ele possui mais de 250 milhões, ou seja, há mais de um telefone para cada brasileiro! Desses, 50 milhões são aparelhos com 3G. E o preço? Enquanto a inflação acumulada entre 2005 e 2011 foi de 35%, o preço da tarifa telefônica subiu meros 8%. Não satisfeitas, as empresas de telefonia oferecem serviços de internet para 50% da população brasileira. Dá pra dizer que não melhorou? Mas podia melhorar muito mais, se nos livrássemos da Anatel, que é um órgão ligado ao nosso querido governo.
5. “O metal mais importante do mundo!”
O Brasil tem as maiores jazidas de nióbio do planeta, incríveis 98% das reservas do mundo. Esse metal valiosíssimo, sem o qual a indústria aeroespacial jamais existiria, tem, porém, seu preço ditado pelos ingleses e é contrabandeado massivamente para fora do país, representando o maior roubo de nossa História desde que os portugueses aqui descobriram o ouro. O Brasil, ao invés de monopolizar esse precioso metal, tem a oferta dele controlada por empresas estrangeiras. Tudo culpa da abertura do mercado à empresas estrangeiras e das concessões. Deveríamos, portanto, ter uma nova Vale do Rio Doce para minerá-lo.
É uma pena, porém, que quase nada disso é verdade. Comecemos pela mais falsa (e hilária) parte: o contrabando de nióbio. O Brasil possui, de fato, 98% das reservas mundiais de nióbio, e ele se encontra aqui em maior concentração do que em qualquer outro país. Que concentração é essa? 2,4%. É um requisito para que algo seja contrabandeado que esse produto possa ser carregado facilmente, como o ouro, que se encontra na mesma concentração, porém se organiza naturalmente em pepitas, ou os diamantes. O nióbio, porém, está pulverizado no solo, ou seja, para que se contrabandeie apenas 1 kg do metal, seria necessário contrabandear outros 39 kg de pedra por refinar. É uma mentira ridícula não só pela inviabilidade de transporte, mas por que subornar os fiscais competentes sairia infinitamente mais caro do que pagar os quase inexistentes impostos, que podem ser vistos aqui.
O nióbio no Brasil é minerado predominantemente por duas empresas: a CBMM, nacional e responsável por mais da metade da produção mundial do minério, e pela Anglo American, empresa sul-africana que produz algo como 10% da extração da CBMM. Essa extração não só não é ilegal como muito bem documentada pelo Estado, como se pode ver aqui e aqui. Quem dita o preço, em última análise é a CBMM, ou seja, somos nós brasileiros que controlamos o preço internacional do commoditie. E pra que ele serve?
Dizer que a extração do nióbio se dá apenas por demanda da indústria aeroespacial é tão legítimo quanto dizer que o petróleo é extraído apenas por demanda da indústria de brinquedos chinesa. Esse setor representa uma parte ínfima das vendas. O que realmente movimenta a mineração é a construção de pontes, gasodutos e oleodutos, além de plataformas de petróleo e mesmo carros, que são construídos com uma liga de aço chamada ARBL. O motivo de se usar esse metal e não outro é por ele ser mais leve e resistente do que, por exemplo, o vanádio e o titânio. Isso explica o baixo preço do metal: não se constrói nada do que ele é usado o tempo todo, então a demanda flutua muito.
Por que, então, tendo um metal raro e tão útil nós não vendemos por um preço mais alto? Por que apesar de, como dito, ele ser mais leve e resistente, ele também tem o melhor custo benefício. Não existe nenhum motivo para se usar nióbio senão esse. Se o Brasil tentasse subir artificialmente o preço desse metal as siderúrgicas ao redor do mundo simplesmente comprariam titânio e vanádio. O nióbio, quem diria?, não é a salvação da pátria.
A lição a ser tirada
Apontar o que é verdade e mentira nos ajuda a tirar conclusões sobre o que nos faz bem ou mal. O saldo final das desestatizações é, portanto, positivo. Falar sobre certo ou errado, entreguismo ou nacionalismo e o que mais for é um debate que só cabe aos apaixonados e cegos, apegados a ideologias que nos prenderam ao atraso simplesmente por ser nosso atraso. Enquanto eles fazem juízo de valores, levemos em consideração apenas os fatos: a melhora nos serviços, o aumento do emprego, o maior retorno em impostos. Se nós queremos crescer, enriquecer e desenvolver, precisamos ter em mente que mais vale dinheiro na mão do que o orgulho de possuir estatais vergonhosas, de ter grandes reservas minerais e não ter leitos em hospitais. A única coisa que o subsolo mais rico do mundo fez até agora foi sustentar com muita eficiência os políticos mais caros do mundo.
As cifras e valores podem ser encontradas no livro A Guerra das Privatizações, de Ney Carvalho.
Guilherme Dalla Costa é acadêmico de Economia na UNIFRA, e escreve para o site do Clube Farroupilha.
As informações, alegações e opiniões emitidas no site do Clube Farroupilha vinculam-se tão somente a seus autores.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O melhor presidente do século XX

Warren G. Harding (1921-1923) foi o único que soube como acabar com uma depressão

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Quando Barack Obama exigiu rapidez na aprovação de mais um pacote de estímulo em fevereiro - atitude essa que vem sendo emulada por quase todos os países do mundo - ele afirmou que somente uma ação ousada do governo iria impedir que a economia caísse em uma profunda depressão.  Ao fazer esse argumento, ele estava apenas papagaiando o pensamento convencional dominante, o qual afirma que os mercados não se autocorrigem - exceto em um prazo muito longo - e que a intervenção estatal é necessária para reativar a atividade econômica.
Nós, os seguidores da sólida teoria econômica (isto é, a teoria austríaca), sabemos por que esse pensamento é errôneo, bem como também sabemos por que mesmo uma eventual aparente prosperidade que tais medidas possam produzir causam danos ainda maiores e levam a uma correção ainda mais severa no longo prazo. 
Mas para aqueles que não se contentam apenas com a teoria - e por isso exigem exemplos práticos - podemos mostrar um testemunho da história.  Em particular, a depressão americana de 1920-1921, sobre a qual a maioria das pessoas nunca ouviu falar, é um ótimo exemplo de retomada de prosperidade na ausência de estímulos governamentais.  Se, como dizem os bem-pensantes, uma economia não pode se recuperar na ausência de intervenções estatais, então o que ocorreu em 1920-1921 não poderia ter sido possível.  Mas foi.
Durante e após a Primeira Guerra Mundial, o Federal Reserve (o Banco Central americano) inflacionou a oferta monetária substancialmente.  Quase toda a economia americana estava voltada para o esforço da guerra.  Com o fim desta - e com os preços em alta - a economia precisava se reorganizar.  E foi aí que começou o período de correção (recessão).  O Fed passou a aumentar a taxa de redesconto - a taxa à qual ele fazia empréstimos para os bancos - e a economia desacelerou, começando a se reajustar para a realidade.  Já em meados de 1920, arecessão havia se tornado severa, com a produção caindo 21% durante os doze meses seguintes.  O número de pessoas desempregadas saltou de 2,1 milhões em 1920 para 4,9 milhões em 1921.  A taxa de desemprego subiu de 5,2% em 1920 para 12% em 1921.
De 1929 em diante, Herbert Hoover e depois Franklin Roosevelt tentaram combater uma depressão econômica encarecendo os custos da mão-de-obra.  Warren G. Harding, por outro lado, disse em 1920, durante seu discurso de aceitação após ser confirmado como o candidato Republicano à presidência dos EUA: "Eu estaria cego às responsabilidades que marcam esse momento decisivo se eu não advertisse os assalariados americanos de que aumentos salariais conjugados com o declínio da produção podem levar apenas à ruína econômica e industrial".  Em outro momento, Harding explicou que salários, assim como os preços, precisariam cair para refletir as realidades econômicas do pós-bolha.
Poucos presidentes americanos são mais impopulares entre historiadores do que Harding, que é rotineiramente retratado como um bobo desajeitado que caiu de pára-quedas na presidência.  Entretanto, quaisquer que tenham sido suas deficiências intelectuais - e elas foram grotescamente exageradas, como recentes estudiosos vêm admitindo - e quaisquer que tenham sido seus defeitos morais (seu gabinete sofreu acusações de corrupção), ele compreendeu os fundamentos da expansão econômica, da recessão e da recuperação melhor do que qualquer outro presidente do século XX.
Harding semelhantemente condenava a inflação: "A brutal expansão da moeda e do crédito levaram a uma depreciação do dólar assim como a expansão e a inflação desgraçaram as moedas do resto do mundo.  Inflacionamos precipitada e apressadamente, e agora precisamos deflacionar cautelosamente.  Enfraquecemos o dólar com políticas monetárias negligentes, agora precisamos recuperá-lo honestamente".
E ao invés de prometer gastar somas inauditas, ele defendia o corte de gastos:
Tentaremos uma deflação inteligente e corajosa, e atacaremos a prática do endividamento governamental, algo que só aumenta o infortúnio e a nocividade, e atacaremos o alto custo do governo com todos meios e energia inerentes à capacidade republicana.  Prometemos o alívio que advirá da interrupção do gasto e da extravagância, e a renovação da prática da economia política, não apenas porque isso irá aliviar o fardo tributário, mas também porque será um exemplo para se estimular a poupança e a economia na esfera privada.
A economia, explicou Harding em seu discurso de posse no ano seguinte, "sofreu os choques e tremores relativos à demanda anormal, à inflação do crédito e ao distúrbio nos preços."  E agora o país estava sofrendo o inevitável processo de ajuste.  Nenhum atalho era possível:
As penalidades não serão leves e tampouco serão igualmente distribuídas.  E não há como fazer com que assim o seja.  Não há uma transição instantânea da desordem para a ordem.  Precisamos enfrentar uma realidade amarga, dar baixa em nossos prejuízos e começar novamente.  Esta é a lição mais antiga da civilização... Nenhuma modificação no sistema poderá operar um milagre.  Qualquer experimento aventureiro irá apenas adicionar mais confusão.  Nossa melhor garantia jaz na administração eficiente de nosso já fundamentado sistema.
Harding foi fiel às suas palavras, executando cortes orçamentários que haviam começado sob o debilitado governo de Woodrow Wilson.  Os gastos federais declinaram de $6,3 bilhões em 1920 para $5 bilhões em 1921 e $3,3 bilhões em 1922.  Simultaneamente, os impostos também foram cortados - para todos os grupos de renda.  E durante o curso da década de 1920, a dívida nacional americana foi reduzida em 33%.
Contrariamente ao Japão, que incorreu em uma maciça intervenção governamental em 1920 que paralisou sua economia e contribuiu para uma severa crise bancária sete anos depois, os EUA permitiram que sua economia se reajustasse.  "Em 1920-21," disse o economista Benjamin Anderson,
Encaramos nossos prejuízos, reajustamos nossa estrutura financeira, suportamos nossa depressão, e em agosto de 1921 recomeçamos nosso crescimento. ... A reação ocorrida na produção e no emprego, que começou em agosto de 1921, foi solidamente baseada em uma limpeza drástica do crédito malfeito, em uma drástica redução nos custos de produção, e na livre concorrência da iniciativa privada.  A reação não se baseou em nenhuma política governamental criada para subsidiar os negócios.
Eis os números: o PIB real - que foi de $146.4 bilhões em 1919, depois caindo para $140.0 em 1920 e finalmente despencando para $127.8 em 1921 - subiu para $148.0 em 1922 e $165.9 em 1923.  A taxa de desemprego - que havia sido de 1.4% em 1919, 5,2% em 1920 e 11,7% em 1921% - caiu para 6,7% em 1922 e 2,4% em 1923.  Tudo isso concomitante a um aumento nos juros.
Isso supostamente não poderia acontecer - ou pelo menos não tão rápido - na ausência de estímulos fiscais e monetários.  Mas em quem você vai acreditar: em Paul Krugman ou nos seus próprios olhos?
Naturalmente, alguns economistas modernos que analisaram o assunto ficaram estupefatos.  Como pode ter ocorrido uma recuperação econômica na ausência de suas estimadas propostas?  Robert Gordon, um keynesiano, admite que "as políticas governamentais para moderar a depressão e acelerar a recuperação foram mínimas.  As autoridades do Federal Reserve foram amplamente passivas. ... Apesar da ausência de uma política governamental de estímulo, a recuperação não demorou."  Kenneth Weiher, um historiador econômico, observa que "não obstante a severidade da contração, o Fed não utilizou seus poderes para aumentar a oferta a monetária e lutar contra a contração." Daí ele rapidamente concede que "a economia recuperou-se rapidamente da depressão de 1920-1921 e adentrou um período de crescimento bastante vigoroso."  Porém (assim como a maioria desses historiadores), ele prefere não se estender muito nesse fenômeno e nem extrair dele qualquer aprendizado.
Na realidade, Weiher, com ares superiores, diz que "isso foi em 1921, muito antes do conceito de política anticíclica ser aceito ou mesmo compreendido".  Hum... sim, e desprovida destas ferramentas 'indispensáveis', a economia americana recuperou-se mesmo assim.
O leitor provavelmente já notou que as recomendações e as ações de Harding são exatamente opostas à sabedoria convencional reinante nos círculos políticos, midiáticos e acadêmicos de hoje.  "O governo precisa fazer algo!", gritam todos.  Obama, o líder da turma, disse que declínios econômicos degeneram-se em depressões duradouras porque os governos deixam de agir com o vigor suficiente para impedi-los.
Não se trata de uma mera coincidência que a economia tenha retornado à normalidade de modo relativamente rápido após a depressão de 1920, ao passo que, diferentemente desta, as condições depressivas persistiram durante toda a década de 1930, uma década de intenso ativismo governamental.  Foi exatamente porque medidas de estímulos fiscais e monetários não foram tentadas, que a recuperação e o posterior e sólido progresso econômico ocorreram no início dos anos 1920.  E essa foi a última vez que um governo se absteve de intervir na economia em épocas de recessão.
A ideia de que estímulos fiscais e monetários são necessários para se curar uma depressão advém de um diagnóstico equivocado das causas das depressões econômicas.  Consequentemente, os remédios ministrados são completamente errados.  Por exemplo, a causa da recessão não é a ocorrência de um nível inadequado de gastos, mas sim o fato de que, no rastro de uma expansão econômica artificial induzida pelo banco central, a estrutura do capital fica em desacordo com as demandas dos consumidores.  A recessão é o período em que esse descompasso é retificado através da realocação do capital para empreendimentos mais apropriados.  Estímulos fiscais e monetários irão apenas interferir nesse rearranjo, atrasando esse processo de limpeza (dos investimentos errados) e reajuste (da estrutura do capital).
Harding, ao contrário da classe política atual, de fato entedia isso.  Desta forma, um dos mais odiados presidentes do século XX permitiu que os EUA enfrentassem uma recessão bem pior do que a atual pela qual estamos passando simplesmente deixando que o livre mercado fizesse os ajustamentos necessários.  E Harding, como seus comentários indicam, seguiu sua política de não fazer nada não por uma questão de inércia ou por ser incapaz de conceber abordagens alternativas; essa figura menosprezada era de fato um economista muito melhor do que a maioria dos gênios que presunçosamente querem nos instruir atualmente.
Atualmente, políticos de todos os cantos do mundo insistem que devemos aprender as lições da história - e de fato há lições para serem aprendidas.  Mas para o estado e seus intelectuais comprados, a história é um mero instrumento a ser colocado a serviço das propagandas exigidas pelo momento, e não uma fonte imparcial de sabedoria ou instrução.
É por isso que observar o desenvolvimento dos eventos atuais é como observar um trem indo vagarosamente para o precipício.  Você sabe que vai acabar em desastre, mas você é incapaz de fazer algo para pará-lo.  Sabemos que os políticos não irão aprender absolutamente nenhuma lição econômica que a história venha a ensinar.  Mas se eles não irão aprendê-las, nós teremos de.  Nem que seja para nos prepararmos para o desastre vindouro.

é um membro sênior do Mises Institute, especialista em história americana.  É o autor de nove livros, incluindo os bestsellers da lista do New York Times The Politically Incorrect Guide to American History e, mais recentemente, Meltdown: A Free-Market Look at Why the Stock Market Collapsed, the Economy Tanked, and Government Bailouts Will Make Things Worse. Dentre seus outros livros de sucesso, destacam-se Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental (leia um capítulo aqui), 33 Questions About American History You're Not Supposed to Ask e The Church and the Market: A Catholic Defense of the Free Economy (primeiro lugar no 2006 Templeton Enterprise Awards). Visite seu novo website.


Fonte: http://www.mises.org.br

Nenhum imposto é neutro; qualquer imposto sempre afetará os mais pobres


Nenhum imposto é neutro; qualquer imposto sempre afetará os mais pobres

Em praticamente todos os países do mundo há um constante apelo para se tributar mais a renda dos mais ricos e utilizar essa receita adicional para fazer a "justiça social", promovendo uma ampla "distribuição de renda". 
O problema de se tributar os ricos, bem como todas as consequências econômicas negativas deste fato, já foram muito bem explicitadas neste artigo, de modo que o objetivo aqui será outro.  O objetivo será explicar por que qualquer tipo de imposto, mesmo aquele voltado exclusivamente para as rendas mais altas, sempre acabará inevitavelmente sendo repassado aos mais pobres, de um jeito ou de outro.
Em todo o debate ideológico acerca do capitalismo, há duas visões opostas que curiosamente partem do mesmo princípio: tanto os detratores do capitalismo quanto seus defensores dizem se tratar de um sistema puramente individualista, em que cada um age por conta própria, pensando exclusivamente no seu bem.  Seus detratores condenam essa exortação à independência; já os defensores glorificam-na.  Porém, nenhum dessas posições parece apreciar a verdadeira natureza do capitalismo, e o problema é que ambas essas concepções erradas estão hoje bastante difundidas.
Há de fato um aspecto em que as pessoas realmente tentam ser as mais independentes possíveis: elas querem evitar pagar impostos.  Todas as discussões a respeito de carga tributária e a respeito de quem — isto é, qual classe social — deve arcar com a maior parte do fardo tributário demonstram um total desconhecimento sobre como o mercado funciona.  A esquerda sempre defendeu que os ricos sejam mais tributados, para que eles deem sua "contribuição justa" à sociedade.  Já a direita costuma reagir dizendo que os mais ricos — tanto os indivíduos quanto as empresas — já respondem pela maior parte da receita tributária do governo, que a camada mais rica da população paga o mesmo volume de impostos que todo o restante da população combinada, e que boa parte da população não paga nada de imposto de renda.   A esquerda então reage dizendo que a desigualdade permanece constante ou, em alguns casos, segue aumentando.  Os ricos estão ficando mais ricos, e isso supostamente é ruim, pois precisamos de maior igualdade para atingir a justiça social.  E por aí vai.
Não irei aqui entrar na (i)moralidade de se defender a espoliação da propriedade alheia; o enfoque será puramente econômico.  O problema em todo esse debate popular sobre impostos é que ele não leva em conta que os esforços para se evitar o pagamento de impostos vão muito além dessa pendenga sobre quais seriam as alíquotas de impostos "justas" e sobre quem deve pagar mais.  Os esforços para se evitar o pagamento de impostos se estendem para todo o mercado.
Se, por exemplo, a alíquota do imposto de renda que incide sobre as rendas mais altas fosse elevada em 20%, os trabalhadores de renda mais alta reagiriam a isso negociando um aumento salarial.  (Dado que a esquerda quer muita gente pagando mais imposto, então creio ser correto dizer que ela defende maior imposto justamente sobre pessoas mais produtivas; caso contrário, seria na prática impossível elevar impostos permanentemente.  Logo, por se tratar de pessoas produtivas, não é incorreto dizer que elas têm poder de barganha junto a seus empregadores).  Se essas pessoas conseguirem um aumento salarial de, por exemplo, 10%, isso significa que praticamente metade do aumento de 20% da carga tributária foi repassada aos seus empregadores.
Essa maior alíquota do imposto de renda reduziu os salários líquidos; o consequente aumento nos salários elevou os salários brutos.  Neste ponto, a exata divisão do fardo tributário entre empregados e empregadores vai depender do relativo poder de barganha entre eles no mercado de trabalho.  O que interessa é que os empregados de maior renda irão repassar uma parte, se não a maior parte, de qualquer aumento em seu imposto de renda para seus empregadores.
Consequentemente, estes empregadores irão contratar menos empregados — ou tentarão contratar oferecendo salários bem menores, algo difícil —, e irão tentar repassar esse aumento havido nos custos trabalhistas para os consumidores, na forma de preços maiores.  Esse aumento, no entanto, vai depender do relativo poder de barganha entre o vendedor e seus clientes, bem como do nível de concorrência no mercado.  Os empresários irão repassar estes maiores custos aos consumidores até o ponto em que possam elevar preços sem sofrer uma relativamente grande perda no volume de vendas.  Desta forma, os consumidores que ainda continuarem comprando a estes preços maiores estarão pagando parte do aumento na carga tributária que supostamente deveria afetar apenas os "ricos".
Logo, vê-se que a direita está errada ao alegar que os mais pobres não pagam imposto de renda.  Além de absolutamente toda a população pagar os impostos indiretos que estão embutidos nos preços dos bens e serviços, a classe média e os pobres também acabam pagando parte daquele aumento do imposto de renda que visava a atacar apenas os ricos.  A esquerda, por sua vez, também está errada ao crer que todo o fardo de uma elevação de impostos pode ser confinada exclusivamente aos "ricos".  A classe média e os pobres sempre acabarão pagando por um aumento de impostos sobre os ricos através dos maiores preços dos bens e serviços.  Qualquer aumento no imposto de renda da camada mais rica da população — seja o 1% mais rico ou os 5% mais ricos — irá acabar por elevar os impostos que toda a população paga indiretamente.
É possível contra-argumentar dizendo que o repasse para os preços desse aumento no imposto de renda seria muito pequeno.  Talvez apenas uma pequena porcentagem da elevação do imposto de renda, o qual foi repassado aos empregadores, seria repassada aos consumidores na forma de preços maiores.  No entanto, caso isso ocorra, o efeito de longo prazo será ainda pior.  Se os empregadores tiverem de arcar com uma elevação marginal dos custos trabalhistas sem uma correspondente elevação marginal de sua receita, suas margens de lucro diminuirão.  Redução nos lucros significa menos investimentos.  E menos investimentos inibem um maior crescimento econômico.  Um menor crescimento econômico significa menores aumentos nos salários e na renda de toda a população.  Os efeitos dos impostos sobre o crescimento econômico, portanto, são bem mais indiretos do que se imagina.
Economias de mercado são sistemas complexos nos quais os interesses de todos os indivíduos estão entrelaçados.  Qualquer esforço para alterar os resultados gerados pela livre concorrência no mercado irá gerar consequências inesperadas e indesejadas.  O conceito de justiça social é, por si só, algo indefinido e arbitrário.  No entanto, mesmo se todos nós de alguma forma concordássemos com uma ideia de redistribuição "socialmente justa", simplesmente não haveria como estruturar a carga tributária (ou os gastos do governo) de maneira a alcançar este objetivo.  A imposição de novos impostos altera preços e salários de maneiras impossíveis de serem previstas e difíceis de serem mensuradas mesmo após o fato já consumado.
Esquerda e direita parecem ter definitivamente abraçado o mito de que o estado é perfeitamente capaz de restringir os efeitos da tributação a apenas uma determinada classe de pessoas.  Embora não seja possível mensurar qual é realmente a verdadeira carga tributária que incide sobre cada pessoa, é perfeitamente possível entender que a real carga tributária é significativamente distinta daquela que havia sido planejada.  Pessoas de alta renda não pagam tanto quanto as alíquotas oficiais sugerem.  O mercado difunde o fardo tributário de uma maneira bem mais equitativa do que as pessoas imaginam.  Tentativas de "fazer os ricos pagarem sua fatia justa" irão apenas aumentar o fardo tributário mutuamente compartilhado por todos, por meio de uma maior tributação indireta e oculta.  Por outro lado, os benefícios de reduções de impostos são também mais amplamente compartilhados do que as pessoas imaginam.
Há duas lições a serem tiradas disso tudo.  A primeira é que nenhum de nós é realmente "independente" e está genuinamente "por conta própria", pois a economia de mercado é um sistema social.  A segunda é que políticos não são capazes de utilizar impostos para alcançar objetivos específicos como uma "renda justa", pois a economia de mercado é extraordinariamente complexa e ajustável.  E os políticos são qualquer coisa, menos oniscientes.  Uma autoridade onisciente e onipotente até poderia impor alguma noção de justiça social; no entanto, a nossa realidade é que a justiça social é algo arbitrário e não exequível na prática.  Estas duas lições possuem implicações profundas e extremamente importantes.
Felizmente, há uma solução fácil para o problema da carga tributária.  Dado que os benefícios do corte de impostos são também difundidos entre todos, qualquer corte no orçamento do governo que possibilite redução de impostos já seria um enorme "avanço social".  Todos nós pagamos impostos desnecessariamente altos.  Todos nós podemos pagar muito menos.

D.W. MacKenzie é professor assistente no Carroll College, em Montana, EUA.

Tradução de Leandro Roque

domingo, 2 de novembro de 2014

As receitas de Chesterton e Belloc contra os políticos corruptos


Em 1891, o Papa Leão XIII publicou na encíclica Rerum Novarum, que condenava os únicos sistemas econômicos nascidos no Ocidente desde a Idade Média: o capitalismo e o comunismo. Em 1926, para propor uma terceira alternativa conforme as diretrizes da Igreja, G. K. Chestorton e Hilaire Belloc, em união com a revistaG. K.’s Weekly, fundaram em Londres a Liga Distributivista (Distributismo). O modelo consiste em criar pequenas comunidades de proprietários nas quais existe o princípio de subsidiariedade, ou seja, a máxima participação dos cidadãos e a mínima intervenção do Estado.


O objetivo deste artigo é dar uma resposta às perguntas colocadas pelo Observatório Internacional Cardeal Van Thuân sobre as hipóteses que a doutrina distributiva seja aplicável ao problema atual da política partidária.

O envelhecimento dos partidos políticos

Define-se “política partidária” a burocratização do sistema dospartidos políticos. Belloc e Cecil Chesterton, irmão do famoso Gilbert K., descrevem em The party sistem (1911) os fenômenos que observam entre os parlamentares em tempos de crises. As instituições públicas não funcionam. As campanhas eleitorais são caras e não servem para formar a vontade do eleitor. A corrupção da classe política se torna hábito. 

A burocracia dos partidos políticos implica um afrouxamento dos reflexos deles, o que impede de tomar decisões no modo de agir. Está ligada ao envelhecimento da sociedade, que precisa se renovar. Existem soluções. Chesterton, Belloc e outros distributistas oferecem uma visão histórica transversal.

1. As comunidades devem ter dimensões reduzidas

Cada comunidade de pessoas deve ter uma “medida humana”. A família é o protótipo da medida humana. Uma sociedade que não se pode contar em números de famílias não é feita à medida do ser humano.

2. O pacto pela verdade

Quando os hábitos das corrupções estão enraizados e ela se torna um costume nacional, é difícil eliminá-la. Antes de aplicar o sistema distributivista é necessário um “pacto pela verdade” de toda a comunidade, onde se levam os parlamentares inativos à ridicularização social. Não será agradável, mas “cada câncer precisa de uma cirurgia”, diz Belloc.

3. Levar os corruptos ao tribunal

Não nada mais marcante para um povo do que levar um corrupto para a prisão. É necessário que a polícia investigue seriamente. É hábito que os agentes descubram primeiro um malvado que maltratou o próprio cão, ou feriu os sentimentos do seu papagaio, do que Rockfeller, que quis perpetrar um trust petrolífero, mesmo se foi encontrada uma mancha de óleo em seu terno.

4. O Executivo não pode dissolver-se antes do término do seu mandato

As campanhas eleitorais são caras e desconfortáveis. Se o governo permanece em minoria, deverá se submeter a uma nova maioria, realizando também as políticas do seu adversário, até o fim da legislação.

5. Eliminar a verba à disposição do Executivo que não sofre fiscalização do Parlamento 

A pergunta é: “o que faria uma pessoa com a chave de um caixa forte se depois não precisasse prestar contas a ninguém?”. Deverão aumentar as exigências do controle dessas verbas pelo Parlamento. É como colocar uma nova fechadura no caixa.

6. Os cidadãos podem levar um representante diante de um tribunal porque não respeitou as promessas eleitorais

É preciso promover leis com este propósito. Para vencer um processo, nos deve assistir a razão legal, não apenas a moral. Hoje as razãos legal e moral não têm motivo de coincidirem, podem ser diversas. Talvez chegará o dia em que cada razão moral corresponderá a uma razão legal.

7. Um remédio específico: o sistema de representação com mandato

democracia funciona somente em pequenas comunidades. Os anciãos de um povo que se reúne debaixo de uma árvore, conversam, tomam decisão e escolhem delegados. Qualquer um representa um grupo de pessoas, que ordena por escrito a votação com uma linguagem simples: “sim”, ou “não”. Esta nomeação documentada é o mandato que dá nome a este tipo de representação.

G. K. Chesterton desenvolveu a maior parte da sua obra sobre o distributismo no período que precedeu o seu Batismo na IgrejaCatólica. Mesmo que a frase seja ambígua, é preciso dizer que Chesterton trabalhava para o Reino, quando descobriu a Igreja.

O distributismo, uma filosofia que dá soluções à problemática atual da política partidária.

Marxismo: a máquina assassina

Com a queda da União Soviética e dos governos comunistas do Leste Europeu, muitas pessoas passaram a crer que o marxismo, a religião do comunismo, está morto. Ledo engano. O marxismo está vivo e vigoroso ainda em muitos países, como Coréia do Norte, Cuba, Vietnã, Laos, em vários países africanos e, principalmente, na mente de muitos líderes políticos da América do Sul.
No entanto, de extrema importância para o futuro da humanidade é o fato de que o comunismo ainda segue poluindo o pensamento e as ideias de uma vasta multidão de acadêmicos e intelectuais do Ocidente.

De todas as religiões, seculares ou não, o marxismo é de longe a mais sangrenta — muito mais sangrenta do que a Inquisição Católica, do que as várias cruzadas e do que a Guerra dos Trinta Anos entre católicos e protestantes. Na prática, o marxismo foi sinônimo de terrorismo sanguinário, de expurgos seguidos de morte, de campos de prisioneiros e de trabalhos forçados, de deportações, de inanição dantesca, de execuções extrajudiciais, de julgamentos "teatrais", e de genocídio e assassinatos em massa.

No total, os regimes marxistas assassinaram aproximadamente 110 milhões de pessoas de 1917 a 1987. Para se ter uma perspectiva deste número de vidas humanas exterminadas, vale observar que todas as guerras domésticas e estrangeiras durante o século XX mataram aproximadamente 35 milhões de pessoas. Ou seja, quando marxistas controlam estados, o marxismo é mais letal do que todas as guerras do século XX combinadas, inclusive a Primeira e a Segunda Guerra Mundial e as Guerras da Coréia e do Vietnã.

E o que o marxismo, o maior de todos os experimentos sociais humanos, realizou para seus cidadãos pobres à custa deste sangrento número de vidas humanas? Nada de positivo. Ele deixou em seu rastro apenas desastres econômicos, ambientais, sociais e culturais.

O Khmer Vermelho — comunistas cambojanos que governaram o Camboja por quatro anos — fornece algumas constatações quanto ao motivo de os marxistas acreditarem ser necessário e moralmente correto massacrar vários de seus semelhantes. O marxismo deles estava em conjunção com o poder absoluto. Eles acreditavam, sem nenhuma hesitação, que eles e apenas eles sabiam a verdade; que eles de fato construiriam a plena felicidade humana e o mais completo bem-estar social; e que, para alcançar essa utopia, eles tinham impiedosamente de demolir a velha ordem feudal ou capitalista, bem como a cultura budista, para então reconstruir uma sociedade totalmente comunista.

Nada deveria se interpor a esta realização humanitária. O governo — o Partido Comunista — estava acima das leis. Todas as outras instituições, normas culturais, tradições e sentimentos eram descartáveis.

Os marxistas viam a construção dessa utopia como uma guerra contra a pobreza, contra a exploração, contra o imperialismo e contra a desigualdade — e, como em uma guerra real, não-combatentes também sofreriam baixas. Haveria um necessariamente alto número de perdas humanas entre os inimigos: o clero, a burguesia, os capitalistas, os "sabotadores", os intelectuais, os contra-revolucionários, os direitistas, os tiranos, os ricos e os proprietários de terras. Assim como em uma guerra, milhões poderiam morrer, mas essas mortes seriam justificadas pelos fins, como na derrota de Hitler na Segunda Guerra Mundial. Para os marxistas no governo, o objetivo de uma utopia comunista era suficiente para justificar todas as mortes.

A ironia é que, na prática, mesmo após décadas de controle total, o marxismo não apenas não melhorou a situação do cidadão comum, como tornou as condições de vida piores do que antes da revolução. Não é por acaso que as maiores fomes do mundo aconteceram dentro da União Soviética (aproximadamente 5 milhões de mortos entre 1921-23 e 7 milhões de 1932-33, inclusive 2 milhões fora da Ucrânia) e da China (aproximadamente 30 milhões de mortos em 1959-61). No total, no século XX, quase 55 milhões de pessoas morreram em vários surtos de inanição e epidemias provocadas por marxistas — dentre estas, mais de 10 milhões foram intencionalmente esfaimadas até a morte, e o resto morreu como consequência não-premeditada da coletivização e das políticas agrícolas marxistas.

O que é espantoso é que esse histórico fúnebre do marxismo não envolve milhares ou mesmo centenas de milhares, mas milhões de mortes. Tal cifra é praticamente incompreensível — é como se a população inteira do Leste Europeu fosse aniquilada. O fato de que mais 35 milhões de pessoas fugiram de países marxistas como refugiados representa um inquestionável voto contra as pretensões da utopia marxista. [Tal número equivale a todo mundo fugindo do estado de São Paulo, esvaziando-o de todos os seres humanos.]

Há uma lição supremamente importante para a vida humana e para o bem-estar da humanidade que deve ser aprendida com este horrendo sacrifício oferecido no altar de uma ideologia: ninguém jamais deve usufruir de poderes ilimitados.

Quanto mais poder um governo usufrui para impor as convicções de uma elite ideológica ou religiosa, ou para decretar os caprichos de um ditador, maior a probabilidade de que vidas humanas sejam sacrificadas e que o bem-estar de toda a humanidade seja destruído. À medida que o poder do governo vai se tornando cada vez mais irrestrito e alcança todos os cantos da sociedade e de sua cultura, maior a probabilidade de que esse poder exterminará seus próprios cidadãos.

À medida que uma elite governante adquire o poder de fazer tudo o que quiser, seja para satisfazer suas próprias vontades pessoais ou, como é o caso dos marxistas de hoje, para implantar aquilo que acredita ser certo e verdadeiro, ela poderá impor seus desejos sem se importar com os custos em vidas humanas. O poder é a condição necessária para os assassinatos em massa. Quando uma elite obtém autoridade plena, várias causas e condições poderão se combinar para produzir o genocídio, o terrorismo, os massacres ou quaisquer assassinatos que os membros dessa elite sintam serem necessários. No entanto, o que tem de estar claro é que é o poder — irrestrito, ilimitado e desenfreado — o verdadeiro assassino.

Nossos acadêmicos e intelectuais marxistas da atualidade usufruem um passe livre. Eles não devem explicações a ninguém e não são questionados por sua defesa de uma ideologia homicida. Eles gozam de um certo respeito porque estão continuamente falando sobre melhorar as condições de vida dos pobres e dos trabalhadores, suas pretensões utópicas. Porém, sempre que adquiriu poder, o marxismo fracassou miserável e horrendamente, assim como o fascismo. Portanto, em vez de serem tratados com respeito e tolerância, marxistas deveriam ser tratados como indivíduos que desejam criar uma pestilência mortal sobre todos nós.

Da próxima vez que você se deparar com marxistas ou com seus quase equivalentes, os fanáticos esquerdistas, pergunte como eles conseguem justificar o assassinato dos mais de cento e dez milhões de seres humanos que sua fé absolutista provocou, bem como o sofrimento que o marxismo criou para as outras centenas de milhões de pessoas que conseguiram escapar e sobreviver.

Por Von Mises

O filosofo anarquista e sua visão de futuro.

Ele foi criticado por Karl Marx, por expressar aquilo que iria acontecer. Como mostra o percurso da história, o filosofo anarquista criticado, vulgo Mikhail Bakunin, estava certo quando formulou essa visão perante o que ele escreveu sobre o operario e sua subida ao poder, o relacionando com a natureza humana. Embora eu não concordando com toda sua visão de mundo, devo dizer que, ele foi correto em fazer esta afirmação, disse ele: “assim sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessaram de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletariado de cima do estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governa-lo. Quem duvida disso, não conhece a natureza humana”Esse mesmo filosofo criticado, fez uma carta ao filósofo que o criticou, dizia mais ou menos assim em seu segundo parágrafo: "Entre meus caluniadores mais agressivos e insistentes − juntamente com os agentes do governo russo – menciono naturalmente o senhor Marx, o chefe dos comunistas alemães, que, sem dúvida por causa de sua tripla condição de comunista, de alemão e de judeu, cismou comigo.  Ainda que pretenda nutrir igualmente um grande ódio contra o governo russo, nunca se ocultou, pelo menos contra mim, de agir de acordo com este governo. Para me denegrir aos olhos do público, o senhor Marx não só recorre aos órgãos de uma imprensa complacente como também se serve de correspondências e cartas íntimas, de documentos e conferências da Internacional Socialista e não hesita em fazer desta grande e bela associação, que ele contribuiu a fundar, um instrumento de suas vinganças pessoais...  Mas não é para responder a Marx que farei uma exceção à regra de silêncio que me tenho imposto. Hoje, no entanto, senhores, eu tenho o dever de repelir suas mentiras ou, para usar uma linguagem mais parlamentar, seus erros, que se inseriram nas colunas do seu jornal." No resto da carta Bakunin explica em detalhes as intenções ocultas e os equívocos de Marx e discorre sobre questões que fascinaram várias gerações, mas que tornaram-se para o público de hoje bastante obscuras. Mas o que torna essa carta de grande valor não é a replica por si só que o Bakunin fez ao que Karl Marx, que lhe tinha criticado, como também não apenas mais um dos inúmeros embates doutrinários que alimentavam o dia a dia da esquerda revolucionária europeia (e que hoje estão em grande parte esquecidos para alegria da Europa e dos europeus), é a identidade intrínseca do crítico de Bakunin, contra o qual o anarquista se insurge nestas cartas que ele escreveu e é de grande valor academico, porem escodem dentro dos nossos centros de debate. Quem quiser saber mas desta carta, os detalhes que nela contem, e as intenções ocultas e os equívocos de Marx sobre a visão de Bakunin, é só esperar o meu próximo post neste blog. No mais, se houvesse duas escolhas ideológicas para seguir, e se essas duas fossem, uma do Bakunin e outro do velho Marx, o anarquista me teria ao lado dele.

R. Douglas Dias Rolim