terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O bom governo pode ser ensinado.

O bom governo pode ser ensinado.

A burocracia pode ser explicada ou definida, em certo sentido, como o produto de uma estrutura paternalista colonial ou patrimonialista, pré-capitalista — um organismo arcaico que, por inércia, se mantém em pleno século vinte, atrasando o nosso necessário progresso. Sociologicamente, certos aspectos lhe são sem dúvida peculiares: a inércia, o conservadorismo e a cristalização de velhos privilégios e hábitos que datam do tempo dos vice-reis. Esses aspectos arcaicos não podem ser olvidados, como vimos. Assim, a permanência de uma mentalidade pré-capitalista pode fazer com que uma tal estrutura, dita "obsoleta", se transforme numa estrutura considerada "moderna" ou "progressista", sem nada eliminar de seus vícios. Em nome do socialismo, pode-se restaurar formas antiquadas de paternalismo. Karl Marx, não podendo prever o desenvolvimento burocrático na
"primeira pátria do proletariado", já prevenia contra o formalismo que "se torna um poder real, sua substância e próprio conteúdo... um tecido de ilusões". Temia Marx que "os objetivos do Estado se tornassem os da burocracia". Assim se explica que a burocracia ineficiente dos Tzares se tenha metamorfoseado no "Primeiro Círculo do Inferno", que nos descreve Alexandre Solzhenitsyn sob a forma dantesca de uma eficiente e ultramoderna prisão estaliniana. O Dinossauro se transforma, nesse caso, em Tiranossauro. A Nomenklatura é a cabeça do Leviatã...

No Brasil pode assim ocorrer que o Vice-Reinado de outrora se transforme no Estado cartorial de hoje; a Corte da Quinta da Boa-Vista, na Copa-e-Cozinha do Planalto; o latifúndio do açúcar, no sindicato dos boias-frias; e o fazendeiro soberbo, no tubarão e no pelego. Assim podemos dar um pulo do Governo Geral para o Estado nacional-sindicalista, sem que isto afete a estrutura da mentalidade burocrática. Pelo contrário, há indícios de que isso poderia ocorrer num ambiente estatizante. Já no Brasil esse perigo começou a materializar-se sob influência do getulismo ideológico e pouco falta para que façamos a experiência de um "Governo Geral" do século XVIII, vestido de slogans marxistas do século XX. Cuba, ao que parece, está completando uma experiência desse tipo, pois a ineficiência burocrática seria ali de tal magnitude que inspirou ao senhor Anastas Mikoyan, velho bolchevista, ministro soviético do Comércio Exterior e armênio esperto, seu célebre comentário sobre a incompatibilidade da rumba e do socialismo. 

É evidente que o problema do futuro da burocracia escapa ao âmbito de um estudo dedicado meramente à exploração de certos aspectos rebarbativos da nossa administração, os quais exprimem peculiaridades de nossa mentalidade coletiva. A burocracia, sem dúvida, é um fenômeno sociológico da época moderna. Dela sofremos nós, como sofrem outros povos, de outras raças e sob outros regimes. Existe burocracia em todo o mundo. Nos países capitalistas, como nos comunistas. A Ocidente como no Levante. Os americanos queixamse de sua red tape e multiplicam as denúncias contra o crescimento do Estado desde Wilson, Roosevelt e Johnson. Os ingleses produziram um especialista, C. Northcote Parkinson, que empreendeu estudos tão aprofundados quanto deliciosos sobre ciência de administração, formulando uma lei famosa que lhe carrega o nome. Esta foi recentemente comprovada empiricamente. Nos países comunistas, a "nova classe" de burocratas centralizantes que, pouco a pouco, substituiu os antigos agitadores profissionais à testa do partido e do Estado, começa a ser combatida como um estorvo ao desenvolvimento e uma traição à Revolução. A "Revolução Cultural" maoísta foi dirigida contra os burocratas do PCC, mas Deng Xiaoping venceu a parada e hoje parece empenhado em "abrir" o país interna e externamente, em que pese a resistência desses mesmos burocratas. A burocracia é o produto monstruoso do século XX e da civilização industrial em seu presente estágio. Ela representa o próprio establishment em todos os seus níveis hierárquicos. Um outro autor recente, já citado, Laurence Peter, formula o seu Princípio de Peter do seguinte modo: "em uma hierarquia, todo empregado tende a elevar-se ao nível de sua própria incompetência; a nata eleva-se até azedar". A nossa burocracia, nesse sentido, não é diferente das demais, refletindo certas tendências universais da sociedade moderna, apenas que foram sobrepostas a alicerces de paternalismo colonial e são modificadas pelo calor original da Mamãezada de nossa sociedade erótica.

Como fatalidade moderna a burocracia é, pois, não somente um arcaísmo, como um desafio do futuro. Mesmo a rebelião dos hippies representou um protesto, talvez necessário, ao excesso de arregimentação, especialização e mecanização que o establishment impõe. A crítica de Parkinson também se endereça ao que a evolução burocrática tem de excessiva e monstruosa. Parkinson previne que "o trabalho expande para encher o tempo disponível". Consciente está de ser a problemática a do excesso, do desperdício de trabalho — trabalho não produtivo e desumanizante, com papelório, carimbos, arquivos, assinaturas, etc, e todas as regras do jogo de poder entre homens que, aos poucos, se vão tornando como que chips de um imenso computador social. Laurence Peter denomina "automatismo profissional" a reação rotineira do burocrata para quem os meios são mais importantes do que o fim, sendo o exemplo clássico o da enfermeira que acorda o doente para dar-lhe um dormitivo. Em nosso serviço público, é notória essa tendência em transformar a papelada em um fim em si mesmo. Peter chama aos autômatos profissionais de "invertidos", porque invertem a relação meio-fim. Na sociedade lógica e pragmática, como é á americana, o excesso de automatismo descambará para o acúmulo
inútil de fatos e informações. No Departamento de Estado foram levantadas críticas — por parte inclusive de um antigo embaixador no Brasil, Ellis Briggs — a essa patologia, citando-se como exemplo a Embaixada dos Estados Unidos então ainda no Rio, um de cujos mil funcionários se ocupava de redigir doutos relatórios sobre os hábitos reprodutivos das mariposas da Amazônia. Por que, de fato, precisa o governo de Washington saber algo sobre as mariposas amazônicas? Por que essa curiosidade de esprit mal tourné? O que se censura nesse caso é a futilidade de relatórios indigestos, a teratologia dos arquivos, a sócio-patologia dos escritórios de comando da revolução gerencial, a psicopatologia do rond-de-cuir... Num povo preocupado com coisas, como é o americano, a doença forçosamente tomará essa forma fetichista macrocéfala extravagante. Aliás, ali mesmo está ocorrendo uma evolução e os americanos já se queixam tanto de sua burocracia agigantada quanto de sua própria ineficiência. O professo Abraham Zaleznik acredita que "o espírito do Mediterrâneo" está começando a afetar a ética protestante...

A mesma moléstia, atingindo uma sociedade erótica como a nossa, preocupada não com coisas mas com pessoas, desenvolverá, não o trabalho, mas a ociosidade. A transformação dessa sociedade pela burocracia não se fará no sentido de uma maior racionalidade, como desejava Weber, mas de uma inflação irracional de efetivos. A lei de Parkinson, adaptada às nossas circunstâncias, poderia ser formulada do seguinte modo: "o pessoal expande para encher o tempo disponível de ociosidade"... (Sugiro ao senador Roberto Campos incluir esta variante parkinsoniana entre as suas já famosas "leis do Kafka"!) 

O presidente Wilson chamava de "eficiência espiritual" o pensamento claro e desinteressado, e a ação destemida. Ora, a nossa sociedade não é lógica, não é racional, não gostando nem do pensamento claro, nem da ação destemida. Seus critérios não são os da eficiência ou achievement, mas os da simpatia, do jeito, do afeto e da cordialidade. Os dois critérios são incompatíveis. Excluem-se mutuamente. Eficiência significa aplicação do espírito à coisa e ao fato objetivo. Exige método, disciplina intelectual, pontualidade, sensibilidade ao empírico, atenção ao pragmático, capacidade de abstrair os sentimentos pessoais em cada caso, em proveito do serviço em trabalho de equipe — traços e qualidades estes que são visíveis no tipo psicológico de pensamento e sensação, porém geralmente carentes no de sentimento e intuição. Para o funcionário brasileiro, prosperando num regime de natureza patrimonialista, cuja característica fundamental é a confusão entre o público e o privado — o emprego público é uma espécie, peculiar a nosso país, de otium cum dignitate, acessível ao aristocrata privilegiado que todos nós nos consideramos; uma forma sublime de previdência social que descobrimos muitos antes do socialismo. Pelo menos para dois ou três milhões de "servidores" e seus dependentes, Papai Noel ainda existe e o paraíso socialista já chegou. É o grande sonho da sinecura. A utopia cartorial. O Estado que, em outras plagas, aparece sob a forma de uma entidade hobbesiana, austera, poderosa e onipotente, às vezes tirânica — surge entre nós como imagem eminentemente rousseauniana, espécie de vaca leiteira ou de mãe-negra; ele parece existir para acolher, proteger, amamentar, sustentar (nomear, pagar, promover, aposentar) seus filhinhos queridos. O monstro do Cambriano que nos administra é um animal do sexo feminino: uma supermãe paquidérmica. 

Entretanto, há uma fatalidade na burocratização da sociedade. Estamos sofrendo aquilo que James Burnham chamou a "revolução gerencial" e, mais recentemente, J. Galbraith descreveu como a nova instituição, a Tecnoestrutura. Os puritanos queriam ser profissionais, no sentido de cumprir a sua vocação religiosa. Nós estamos condenados a sêlo.  O próprio gigantismo da economia, da técnica e organização no mundo moderno impõe o tipo de racionalização no comando que consubstancia a nova tecnocracia gerencial — isto, quaisquer que sejam os percalços saudosistas que uma tal evolução nos possa inspirar. O burocrata, como tecnocrata, será sempre mais poderoso do que o hippie porque o burocrata, por definição, dispõe do poder. O autor polono-americano Zbigniew Brzezinski, ex-secretário do Conselho de Segurança Nacional do governo Carter, no livro Between Two Ages, admite que a sociedade — e não somente num âmbito universal mas no nível de cada nação ocidental, inclusive Estados Unidos — esteja cada vez mais rigidamente dividida entre os que pensam e os que sentem. De um lado os tecnocratas, tranquilos e metódicos, discípulos de Hobbes, controlando rudemente o poder. Do outro, os que Brzezinski chama de "emocionalistas" em rebelião contra a desumanização da sociedade de computadores. São os discípulos de Rousseau. 

Ora, o nosso desenvolvimento está chegando. Ele impõe suas condições, as duras exigências de luta pela vida — e uma das principais, na sociedade industrial, é a da eficiência. Precisamos de uma hierarquia eficiente, inteligente, competitiva e dedicada para conduzir o dese nvolvimento. Precisamos de uma elite governante, pequena como toda elite.A nossa revolução deve ser uma revolução de mentalidade — não revolução no sentido romântico literário que simplesmente derruba a Bastilha dos privilegiados, guilhotina as elites, queima os castelos dos ricos e se empenha em violência inútil. O de que precisamos, sem prejuízo da contribuição que sempre nos darão os que sentem, é uma revolução do Logos — do bom senso, do equilíbrio, da inteligência — coisas que são necessárias, embora difíceis de obter, pois sem elas o monstro burocrático obsoleto estará sempre crescendo desmesuradamente.

É nesse ponto que se coloca uma das mais cruéis opções com que nos deparamos em nosso esforço de renovação e modernização — pois, se não eliminarmos a mamãezada e substituirmos o paquiderme terciário por um organismo mais evoluído, serão vãs nossas esperanças de desenvolvimento. A opção é essa. Só essa. 

A pergunta natural para quem, de frente, fita o Dinossauro anteriormente descrito é o seguinte: Que fazer? Como caçar o monstro? Como eliminá-lo? Como diminuir o empreguismo, banir o clientelismo, combater o nepotismo, selecionar os melhores, aumentar a dedicação dos servidores, apressar e simplificar os processos, suprimir as tolices, racionalizar os serviços, reduzir o poder do Estado?

Não se trata tanto, a meu ver, de tomar esta ou aquela medida legal corretiva quanto de "mudar a mentalidade". Algo que virá lentamente com a educação, com o esforço consciente do governo e com o próprio desenvolvimento. Uma sociedade liberal moralmente estruturada poderá superar o estágio da mamãezada patrimonialista. Mas não é o caso de debater os remédios. Todo mundo sabe quais são, sobretudo se pertence à própria classe. Atrevo-me aqui apenas a apresentar uma sugestão num setor particular, embora crucial: o da seleção inicial para o alto funcionalismo. A ideia é a de criar, no Brasil, uma instituição calcada no modelo francês da École Nationale d'Administration.

Esse modelo talvez seja aplicável ao Brasil. Certos sucessos recentes de nossa história parecem indicar a existência, no setor de formação das elites administrativas do país, de uma espécie de vácuo que poderia ser preenchido por uma escola superior desse tipo. Com efeito, ao lembrar o crescimento da Fundação Getúlio Vargas e de várias faculdades de Administração em universidades brasileiras, assim com cursos de formação e

aperfeiçoamento dos funcionários mantidos por algumas repartições federais e governos estaduais, cabe ainda mencionar o papel desempenhado pela prestigiosa Escola Superior de Guerra.

No sistema que propomos, calcado no modelo francês, a Escola Nacional de Administração assumiria uma função precisa e nitidamente delimitada: assegurar o recrutamento e a formação da fração superior do funcionalismo civil. Na França, essa fração inclui os que devem servir nos grandes conselhos de Estado, na Inspetoria-Geral de Finanças (os inspetores de finanças, como o presidente Giscard d'Estaing ou o primeiroministro Fabius, constituem a elite da economia francesa, pública e privada), Tribunal de Contas, Corpo de Prefeitos (que são todos nomeados pelo Governo Central), tribunais administrativos e quadros superiores dos ministérios. Em França, a ENA também prepara para a carreira diplomática, incluindo, nesse sentido, a função entre nós atribuída ao Instituto Rio Branco. Tal fração, colocada no topo da hierarquia, representa de 5 a 6 mil funcionários, em um total de 1.300.000 agentes da função pública. No Brasil, cuja organização é federal, estadual e municipal, uma escola do tipo sugerido teria requisitos mais modestos, embora se possa imaginar estivesse ela pronta para preparar o pessoal, tanto para o âmbito federal, quanto para o estadual e para o municipal (onde a incompetência e a malandragem são às vezes fenomenais). Podemos conceber que a ENA brasileira admitisse um número anual da ordem de uma centena, para um curso de dois a três anos — fornecendo um efetivo de graduados ligeiramente inferior, em virtude dos abandonos e da erosão natural de uma seleção severa. 

Outro traço original do sistema francês: são os próprios alunos que, por ordem de classificação final segundo o mérito, escolhem a carreira desejada nesse ou naquele Ministério, Tribunal ou Conselho mais procurado. O sistema cria um extraordinário estímulo, pois a escolha vai determinar o destino do rapaz nos 30 ou 40 anos seguintes. O serviço público deixa assim de constituir uma sinecura, alcançada a golpes de pistolão, para se tornar uma honraria dada ao mérito, e acompanhada de forte incentivo material. O serviço público adquire, em suma, o sentido mais alto de carreira, que encontramos nas armas e na diplomacia. 

A vantagem principal da Escola não é, a meu ver, tanto a substância didática, quanto a própria noção de seleção, consubstanciada nos concursos de ingresso e exames finais — sistema racional e democrático de recrutamento, elevando o nível intelectual do funcionário e gerando uma mística, tão importante no sentido de aprimorar o padrão de eficiência e o sentimento de dedicação implícito na palavra SERVIÇO. O espírito cartesiano reconhece que, não obstante todos os possíveis inconvenientes do sistema (como já foi notado, por exemplo, no Instituto Rio Branco), ainda é o melhor que se possa conceber. A sua descoberta ocorreu na antiga China, cuja civilização foi a primeira a se estruturar na base de uma aristocracia essencialmente política e administrativa — uma elite de intelecto, e não de sangue, de dinheiro ou de armas: o mandarinato. Durante mais de 2.000 anos a China confuciana adquiriu, através das piores catástrofes históricas, uma durabilidade ímpar entre as civilizações conhecidas, graças justamente à extrema solidez de sua burocracia imperial, selecionada por concurso. Poderíamos esperar, no Brasil, uma solução desse calibre? Seria a nossa sociedade capaz de adquirir a necessária racionalidade de comportamento administrativo, pela formação de seu pessoal através da ENA? Poderia a Grande Família da sociedade de tipo patrimonialista abrir mão de seu sistema de seleção inspirado no princípio afetivo: "para os amigos, tudo; para os inimigos, nada; para os indiferentes, lei neles?" E substituir o critério do compadrio, do nepotismo, do pistolão, da panelinha, pelo do merecimento puro?

Uma outra sugestão merece aqui ser apresentada, uma vez que não existe em nosso país, quer na área privada, quer no setor público, quer no universitário, um ensino desenvolvido de ciência política, em instituto superior para a formação de elites governantes. Como professor do Departamento de Relações Internacionais e Ciência Política da Universidade de Brasília convenci-me desse fato. Em minha experiência anterior, na Escola Superior de Guerra (1965) e nos cursos da ADESG, pude também verificar que essa instituição, tão empenhada nos estudos do Poder Nacional em seus quatro campos, concede menos ênfase ao Político do que aos demais, a saber, o Econômico, o Psicossocial e o Militar. Na realidade, não se poderia entender haja a ESG adquirido a
importância que hoje lhe reconhecemos, a ponto de haver constituído, durante a presidência Castello Branco, uma espécie de alma mater do regime, se realmente não arcasse com a honrosa e mui necessária missão de instruir, nos grandes problemas nacionais de natureza política, econômica, militar e psicossocial, um grupo crescente de pessoas com postos de responsabilidade na direção do país.

Também é verdade que a ESG é um instituto de altos estudos, uma espécie de pósgraduação política para o último escalão da hierarquia que governa o Brasil. Mas o que quero dizer é que a importância adquirida pela ESG no cenário brasileiro resulta, 

justamente, da inexistência de uma escola que prepare os civis para o governo, no início da carreira pública. O que não foi feito aos vintes e poucos anos, tem de ser realizado aos 40 ou 50, quando o homem já é ministro, coronel, secretário de embaixada, magistrado, diretor de departamento ministerial. A única (benevolente) crítica que se possa fazer à instituição da Fortaleza São João é que desperdiça esforços com muitos homens que, pela sua idade e hierarquia, já estão próximos da aposentadoria. Na época em que fiz estágio na ESG verifiquei a grande percentagem de perdas ou evasão de diplomados que, por esta ou aquela razão, abandonavam o serviço público logo após terminar o curso. Do mesmo modo, se o conceito de segurança, ao qual foi posteriormente adicionado o de desenvolvimento, representa o fulcro das pesquisas às quais se dedica a escola, o estudo filosófico da política jamais nela atingiu a profundidade que seria de desejar. Sabemos que o desenvolvimento foi acrescentado às preocupações centrais da ESG a partir de 1964, após a supressão do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) o qual, criado na presidência Kubitschek, tinha tido o louvável propósito, precisamente, de elaborar em nosso país uma filosofia do desenvolvimento. O ensino da política, como terceiro componente de um trinômio, não foi verdadeiramente considerado, nem em uma instituição, nem na outra. Existem, sem dúvida, muitas cátedras de ciência política em universidades brasileiras, mas é um ensino em geral superficial, meramente introdutório e sem aprofundamento na pesquisa, realizado de
maneira perfuntória com aplicação em nossa terra de ideias provenientes da Europa e dos Estados Unidos da América. A prova, contudo, da existência de uma imensa demanda insatisfeita pode ser encontrada no fato de que um seminário, promovido pela UnB para deputados, em 1983, resultou no inesperado registro de duzentos e tantos congressistas, cinco vezes o calculado. 

A falha a que me refiro teve consequências relevantes na história brasileira destes últimos 30 anos. Seu primeiro sintoma foi a conversão do ISEB, fundado sob tão eufóricos auspícios, em centro de difusão da doutrina marxista, acarretando seu posterior fechamento. A concentração dos estudos sobre os destinos do Brasil na ESG promoveu o binômio segurança e desenvolvimento como verdadeiro princípio orientador do "sistema" que nos governou de 1964 a 1984. Esse sistema, se por um lado concedeu ao Brasil um dos mais longos períodos de tranquilidade de sua vida republicana, proporcionando-lhe um extraordinário e incontrovertível progresso industrial e rápida modernização assim como a emergência da nação como uma das dez principais potências econômicas do planeta, gerou por outro lado a falácia. Uma falácia grave. A de acreditar-se que a segurança e o

desenvolvimento, sendo objetivos solidariamente necessários, são também objetivos suficientes da nacionalidade.

Ora, o desenvolvimento, como é notório, não diminui as tensões, exacerba-as. A crença de que, meramente através da expansão industrial, iria o Brasil reforçar a sua própria segurança, consolidar as suas instituições políticas e garantir a solução das tensões sociais foi totalmente ilusória. Foi o fracasso de 64. Os problemas mais graves do país não se encontram, hoje, nas suas regiões mais atrasadas, mas nas mais adiantadas. Os handicaps do Nordeste, da Amazônia e do Centro-Oeste são conhecidos: eles serão superados naturalmente pelo próprio ímpeto desenvolvimentista. Os problemas do Sul e do Leste, ao contrário, são de crescente complexidade e de solução desconhecida. O mal, quero crer, reside numa falta de entendimento do fator político, desse misterioso elemento de sabedoria política sem o qual tanto a segurança quanto o próprio desenvolvimento podem conduzir, como conduziram, a um impasse. Podemos acrescentar que outras nações, nossas vizinhas, foram vítimas do mesmo erro de avaliação, em pior. A Argentina, que há uns cinquenta anos era um dos países relativamente mais desenvolvidos do mundo, e se vangloria de abundantíssimos recursos naturais, de um alto nível de cultura e de instrução pública avançada, graças a uma população relativamente homogênea e sem grandes contrastes econômicos e tensões sociais, chegou ao triste estado em que se encontra simplesmente por incompetência política. O problema crucial, em suma, é político. É um problema de sabedoria de governo por parte das elites dirigentes.

O processo de abertura que conduziu à Nova República tornou flagrante o fato de que a problemática institucional brasileira — que perdura, em última análise, desde a fundação da República — não foi resolvida, mas apenas deixada de lado. Adiada. A fina intuição política que norteou admiravelmente o processo de redemocratização do país, sem qualquer choque violento, tornou ao mesmo tempo patente que o sistema de simples improvisação está chegando ao ponto de exaustão. Corremos o risco de voltarmos ao marco da partida, com a perspectiva sempre possível de uma repetição da triste e lastimável história de nossa vida institucional entre 1930 e 1964: três constituições, duas ditaduras, três revoluções, quatro golpes militares. O fato lamentável, aliás apontado entre outros pelo senador Roberto Campos, é que todos os presidentes da República daquele período, sem exceção, ou foram precedidos por um golpe de estado que lhes assegurou a posse, ou tiveram o seu mandato terminado com outro golpe de estado. Positivamente, sem o recurso excepcional à ação moderadora das Forças Armadas, o processo institucional brasileiro é defeituoso e nada nos garante que o defeito tenha sido corrigido. Permito-me citar Shakespeare outra vez (noHamlet): 

E resta agora descobrirmos a causa desse efeito — Ou antes, a razão deste defeito;
Pois esse efeito defeituoso há de ter causa... 

A causa do efeito defeituoso reside na ausência de verdadeira formação e educação política da elite governante em quase todos os níveis da sociedade, o que compromete profundamente o funcionamento adequado dos órgãos do Estado e torna aleatória a ação do governo.

Não quero dizer com isso que não exista muita sabedoria política em nossa terra — feita de intuição e experiência. Contudo, a observação empírica da história brasileira recente e a constatação imediata — que julga, por exemplo, o nível dos debates do Congresso, as intervenções nas convenções partidárias, na disputa eleitoral ou na maior parte dos comentários da imprensa — levam-nos à convicção inarredável de que o país que construiu a maior hidroelétrica do mundo, que já exporta armamento sofisticado e que tão suavemente resolveu os graves problemas da convivência de comunidades raciais e religiosas de notória disparidade, encontra-se ainda, em termos de cultura política, num nível de evidente primarismo folclórico umbandista. Poderíamos argumentar ainda com alguns exemplos aberrantes, nos resultados das eleições em alguns dos estados mais adiantados da Federação. 

Esse primarismo é tanto mais desastroso quanto enfrentamos sérios problemas de desequilíbio social, de desafio demográfico e ecológico, de crise econômica, para não falar da ameaça universal do totalitarismo nacional-socialista cujos arrogantes promotores proliferam em nosso próprio meio. Problemas que não podem mais ser enfrentados na base de improvisação e do diletantismo.


Cabe, em suma, corrigir o mal. A boa política pode ser ensinada — é esse o grande princípio que nos legou Platão como discípulo de Sócrates e que se incorporou ao próprio cerne da democracia, numa tradição que, no Ocidente, é mais de duas vezes milenar. Deve-se promover a ética da responsabilidade. Platão lembrava, com razão, que ninguém se atreve a entregar o tratamento de sua saúde senão a um médico, treinado para tal. Nem tampouco mora numa casa que não tenha sido construída por uma arquiteto qualificado. Nem ainda aprecia um
prato que não tenha sido preparado por uma cozinheira de forno e fogão. E, no entanto, refletia o fundador da Academia que, na coisa mais importante da vida em sociedade, qual seja a conduta da polis, aceitamos ser governados por pessoas sem nenhum preparo ou treino profissional. A filosofia platônica visava firmar as bases da paideia política na educação. Em outras palavras, acentuava que sem cultura e educação política em nossas
elites dificilmente podemos conceber o funcionamento suave e eficiente da democracia.

Esta pequena introdução tem como objetivo solicitar a atenção para a importância do exemplo que nos oferece a John F. Kennedy School of Government, em Cambridge, Massachusetts. A mais antiga (1936) e, provavelmente, a mais ilustre de todas as instituições de ensino norte-americanas, a Universidade de Harvard já formou seis presidentes (John Adams, John Quincy Adams, Rutherford Hayes, Theodore Roosevelt, Franklin D. Roosevelt e J. F. Kennedy). E é relevante notar que, nesta que é a mais rica, mais poderosa e mais sólida democracia ocidental, tenha sido considerado essencial ao aperfeiçoamento democrático e ao aumento da competência do Estado, no enfrentamento dos gravíssimos problemas do mundo contemporâneo, a organização de uma escola especializada como parte integrante da universidade mais prestigiosa. O primeiro dos presidentes acima mencionados, John Adams, declarou certa vez: "O governo nunca foi muito estudado, mas o deve ser. O resultado, com o tempo, ... será o aperfeiçoamento da humanidade." O terceiro, Hayes, observou também que "é uma esperança vã contar com o sucesso do governo de uma nação livre, sem os meios de assegurar a inteligência daqueles que são fonte do poder". Franklin Roosevelt opinou que "a universidade deve treinar os homens para serem cidadãos, naquele alto sentido ateniense que os obriga a viver sua vida, incessantemente conscientes de que seu significado cívico é o mais permanente". "A mente humana é nosso recurso fundamental", acrescentou mais tarde Kennedy, em memória do qual foi batizada, em 1966, a Escola de Administração Pública que fora fundada em 1936, dentro da Universidade de Harvard, por iniciativa e com recursos fornecidos pelo filantropo e ex-congressista Lucius Littauer.

A Escola de Governo de Harvard possui um programa de graduação — no que corresponde aos vários cursos de administração pública existentes em nosso próprio país (na FGV, por exemplo) e às disciplinas de ciência política da própria UnB. A peculiaridade excepcional da Kennedy School é antes o trabalho de pesquisa aplicada, os seminários e os cursos em alto nível de pós-graduação, para a formação política de pessoas — os futuros líderes na elite do poder — que já se encontram a serviço do Estado nas três categorias seguintes: 1) por força de um pleito eleitoral; 2) como servidores numa carreira organizada; e 3) como executivos de empresas públicas ou ocupantes de cargos de confiança, nomeados  pelo presidente da República. Não à toa formou a Kennedy School algumas das personalidades mais eminentes da vida política americana atual, além de três líderes estrangeiros conhecidos: o presidente De la Madrid, do México (1965), o premier Trudeau do Canadá (1948), e o premier Lee Yuan-Yew, de Singapura (1970). A Kennedy School mantém, efetivamente, vários tipos de conexões internacionais. Sustentado no exemplo de Harvard e após análise da experiência brasileira, o que apresento como proposta idônea é a organização de uma Escola de Altos Estudos Políticos, funcionando no quadro da Universidade de Brasília e sediada na capital. Seu propósito central seria constituir um fulcro de pesquisa e uma ponte entre a universidade, como mais alta instituição educacional a meio caminho entre a esfera privada e a esfera pública, e o mundo da política. Repetindo aqui o que afirmou certa vez o presidente (reitor) de Harvard, Derek C. Bok, podemos acentuar que "o desafio maior que enfrenta a educação superior... nesta geração, é proporcionar um preparo profissional da mais alta qualidade para homens e mulheres capazes de desempenhar um papel de liderança no serviço público". O desafio do mundo moderno é o bom governo. A existência de uma elite política competente e dedicada. Ao visitar-nos no princípio do século, afirmava lord James Bryce, o grande estadista e scholar britânico, que nenhum povo mais do que o nosso lhe parecia depender, para seu futuro desenvolvimento, do que ele chamou statesmanship. Preparar estadistas, no
sentido mais respeitável da palavra, e não meros políticos no significado banal (e às vezes pejorativo) que adquiriu o termo, seria o objetivo da instituição proposta. Sua colocação num quadro universitário teria a vantagem incomensurável de preservá-la de comprometimento com as vicissitudes das lutas partidárias, devendo ao mesmo tempo pairar suficientemente acima dos departamentos e faculdades da universidade para não sofrer dos percalços que, muitas vezes, comprometem essa austera instituição. 

A dinâmica da política nacional, a dura realidade da existência internacional neste período agitado da história universal e a complexidade crescente da sociedade moderna que, a todos, impressiona — alimentam uma demanda progressiva para ação do governo em benefício de causas urgentes e valiosas. O próprio problema constitucional brasileiro que está sendo novamente objeto de debate, com sugestões quanto à mudança do sistema presidencialista que nos tem governado desde 1889. O voto distrital. O papel do Estado e seu agigantamento como alvos de polêmicas e de sugestões contraditórias. A própria extensão das franquias democráticas ou a permanência do autoritarismo que, evidentemente, tem contaminado a história brasileira. A organização da Federação, os mecanismos sucessórios e o desequilíbrio na balança dos três poderes. Eis alguns dos temas que carecem de pesquisa exaustiva e na qual a contribuição de teóricos da ciência política objetiva poderá ser valiosa, no sentido de corrigir posições interesseiras, muitas vezes inspiradas na vulgata ideológica ou em casuísmos de oportunidade transitória. O tecnocrata que não possua um sólido conhecimento de filosofia política ficará isolado em sua torre de marfim especializada, insensível às correntes emocionais da vida nacional. O congressista, por outro lado, e o ativista da vida partidária, desprovidos de conhecimentos similares, procurarão respostas fáceis nos slogans e dogmas das ideologias da moda. Urge, repito, "profissionalizada atividade político-administrativa pelo estudo e a pesquisa. Se levarmos na devida consideração o famoso aforismo de Bacon — de que "conhecimento é poder" — diremos que a ciência política, não obstante seu caráter impreciso e altamente controverso, já possui um corpus de conhecimentos, analítico e histórico, suficientemente elaborado para proporcionar o fundamento de um treinamento sério para o serviço público em sua mais elevada expressão.

O de que se necessita, em conclusão, é de educação superior adequada de uma nova elite política. Uma profissão que incluiria as pessoas eleitas para o legislativo, nomeadas pelo executivo ou promovidas em suas carreiras estatutárias, independentemente das vicissitudes da vida partidária. Pessoas todas selecionadas na base de sua capacidade analítica, de seus conhecimentos teóricos, de sua sensibilidade aos imperativos da justiça, sua responsabilidade moral, sua competência administrativa prática e seu sentido de fidelidade institucional.

Fonte: Penna, José Osvaldo de Meira, 1917-
P459d O dinossauro : uma pesquisa sobre o Estado, o
patrimonialismo selvagem e a nova classe de
intelectuais e burocratas / Jose Osvaldo de Meira
Penna. -- São Paulo: T.A. Queiroz, 1988.

ESSAS BANDAS ERAM PROIBIDAS NA UNIÃO SOVIÉTICA


ESSAS BANDAS ERAM PROIBIDAS NA UNIÃO SOVIÉTICA

Black Sabbath, Pink Floyd, Sex Pistols, Kiss, Iron Maiden, AC/DC, Ramones... conheça as bandas proibidas pelo comunismo soviético

Como se não bastassem os muros, as perseguições a jornalistas e aos filmes ocidentais, a União Soviética também mantinha uma lista de músicos e bandas proibidas pelo regime. Tratava-se da “lista de artistas estrangeiros com um repertório ideologicamente perigoso”, lançada pelo Komsomol, uma espécie de Juventude do Partido Comunista da época.

A lista incluía 38 artistas acusados, entre outras coisas, de erotismo, neofascismo, anticomunismo, homossexualidade e violência, manifestações tidas como inadmissíveis pelo Kremlin. Entre os músicos listados, constavam bandas punks, de metal e diversos artistas pop ocidentais. Alice Cooper, Pink Floyd, Donna Summer e até Julio Iglesias (acusado de neofascismo) apareciam entre os artistas proibidos de tocarem em discotecas. Além da lista lançada pelo Komsomol, outros artistas, como os Beatles, também já eram banidos do país há alguns anos.

O documento, transcrito no livro Everything was Forever, Until it was No More: The Last Soviet
Generation, de Alexei Yurchak, ainda pedia “um controle mais intenso das atividades realizadas pelas
discotecas” e alertava para que a informação também fosse repassada para as bandas. O arquivo foi
escrito em janeiro de 1985, já no governo de Mikhail Gorbachev, último presidente da União Soviética.

Bandas de metal, como Black Sabbath, Nazareth, Iron Maiden e Judas Priest estraram na lista negra por supostos crimes como obscurantismo religioso, violência e anti-comunismo. Talking Heads entrou para a lista por ameaçar o “mito militar soviético”. Como destaca o autor do livro, uma das razões para as faixas da banda britânica Pink Floyd terem sido banidas das rádios e discotecas do país era a música Get your Filthy Hands Off my Desert, que, segundo o Komsomol, “distorcia a política externa soviética”. O problema estaria na letra, que começava com um “Brejnev tomou o Afeganistão”: para os oficiais russos, o trecho passava a ideia de uma ocupação violenta, o que era inaceitável.

Dr Andrei Rogatchevski, professor de estudos russos da Universidade de Glasgow, afirma que “as
autoridades não gostavam de referências sobre sexo porque não gostavam de nenhuma emoção que
não pudessem controlar”. 


“Qualquer um que fosse religioso de qualquer forma era culpado de “obscurantismo religioso”. Não
importa se você acreditasse em Deus, no diabo, em magia negra ou qualquer outra coisa. A única coisa que você deveria acreditar era no partido. Eles não gostavam de letras violentas porque elas podiam perturbar a ordem soviética.”

A proibição, no entanto, não se mostrou muito efetiva e a vontade dos russos de apreciarem a música
ocidental falou mais alto. E tudo isso graças à junção de duas palavras muito comuns em ambientes de forte controle econômico estatal: mercado negro. Foi nesse cenário de repressão musical que surgiram os Ribs, a alternativa popular aos discos de vinil.

Com chapas de radiografias tiradas dos lixos hospitalares, músicos começaram a copiar faixas de discos trazidas ilegalmente para dentro do país. As cópias permitiram a popularização de músicas até então censuradas e, para o documentarista britânico Leslie Woodhead, tiveram um papel fundamental na queda do regime.

“Os Beatles promoveram uma revolução cultural na antiga União Soviética que teve um certo impacto na demolição do comunismo naquela parte do mundo”, diz.
Para ele, o ponto chave foi justamente os mercados negros, que trouxeram para dentro da cortina de
ferro as músicas combatidas pelos oficiais:

“Isso fez o fruto proibido ainda mais doce… as crianças começaram a pensar, ‘o governo nos disse que essas músicas eram más, mas não é verdade. São músicas adoráveis! Talvez eles também estivessem mentindo para nós sobre outras coisas.’ Isso teve um impacto muito corrosivo.”
A música ajudou a derrubar a tirania.

Fonte: http://spotniks.com/essasbandaseramproibidasnauniaosovietica/

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Os socialistas, a razão e os fatos.


Os socialistas ignoram a razão e os fatos

Com a surpreendente credulidade que é típica dos clássicos, Fénelon ignora a autoridade da razão e dos fatos, quando atribui a felicidade geral dos egípcios não à sua própria sabedoria, mas à sabedoria de seus reis: Ao olharmos as margens dos rios, percebíamos cidades opulentas, casas de campo agradavelmente situadas, terras que se cobriam a cada ano de douradas colheitas em prados cheios de rebanhos, trabalhadores cansados sob o peso dos frutos que a terra oferece, pastores que faziam ecoar por toda parte o doce som de suas flautas e de seus pífaros. Feliz, dizia Mentor, o povo que é conduzido por um rei sábio.

E Mentor me fazia notar a alegria e a abundância espalhadas por todo o campo no Egito. Aí se podiam contar até vinte e duas mil cidades. A justiça feita a favor do pobre, contra o rico; a boa educação das crianças, acostumadas à obediência, ao trabalho, à sobriedade, ao amor pelas artes
e pelas letras; a exatidão com que todas as cerimônias religiosas eram celebradas, o desinteresse, o desejo da honra, a fidelidade aos homens e o temor aos deuses, tudo isso inspirado pelos pais aos filhos. Ele não se cansava de admirar esta bela ordem. Feliz, me dizia ele, o povo que um rei sábio conduz desta maneira.

Sobre Creta, Fénelon descreve um idílio ainda mais sedutor. Em seguida, coloca na boca de Mentor as seguintes palavras: Tudo o que vocês veem nesta ilha maravilhosa é fruto das leis de Minos. A educação que ele estabeleceu para as crianças torna o corpo sadio e robusto. Elas são inicialmente
acostumadas a uma vida simples, frugal e laboriosa; supõe-se que qualquer prazer dos sentidos amolece o corpo e o espírito; não se lhes propõe jamais outro prazer que o de serem invencíveis, através da virtude e da conquista da glória... Aqui se castigam três vícios que entre outros povos
são impunes: a ingratidão, a dissimulação e a avareza.

Quanto ao fausto e à preguiça, não se tem jamais necessidade de reprimi-los, pois são desconhecidos em Creta... Não se permitem nem mobiliário precioso, nem festins deliciosos, nem palácios dourados.

É assim que Mentor prepara seu aluno para moldar e manipular — sem dúvida nas melhores das intenções — o povo de Ítaca. E para convencer os alunos da sabedoria de suas ideias, Mentor recita-lhes o exemplo de Salento.

É deste tipo de filosofia que recebemos nossas primeiras ideias políticas! Ensinaram-nos a tratar as pessoas como um instrutor de agricultura ensina aos agricultores a preparar e a cuidar do solo.

Fonte: Bastiat, Frédéric
A Lei / Frédéric Bastiat. – São Paulo : Instituto
Ludwig von Mises Brasil, 2010.
Bibliografia
1. Leis 2. Estado 3. Normas 4. Teorias Econômicas
5. Protecionismo I. Título.

O CIRCULO VICIOSO DO SOCIALISMO

O círculo vicioso do socialismo

Não escaparemos jamais deste círculo: a ideia de homens passivos e o poder da lei usado por grande número de pessoas para mover o povo.

Uma vez nesta rampa, poderia a sociedade gozar de alguma liberdade?
— Certamente. — E o que é a liberdade, Senhor Louis Blanc?
De uma vez por todas, a liberdade não consiste somente no DIREITO concedido, mas no PODER dado ao homem para exercer, para desenvolver suas faculdades, sob o império da justiça e sob a salvaguarda da lei. 

E não se veja aí uma distinção sem importância: seu sentido é profundo e suas consequências imensas. Pois desde o momento em que se admite ser necessário ao homem, para ser verdadeiramente livre, o PODER de exercer e de desenvolver suas faculdades, resulta daí que a sociedade deve a cada um de seus membros uma educação adequada, sem a qual o espírito humano não pode desenvolverse. E deve também os instrumentos de trabalho, sem os quais a atividade humana não pode desenvolver-se. Ora, através de que ação pode a sociedade dar a cada pessoa a educação necessária e os instrumentos de trabalho convenientes, se não for por intermédio do estado?

Assim, mais uma vez, a liberdade é o poder. Em que consiste este PODER? (Em possuir instrução e instrumentos de trabalho.) Quem deve dar a educação e os instrumentos de trabalho? (A sociedade deve fazê-lo para cada um.) Por que ação a sociedade deve dar instrumentos de trabalho a quem não os possui? (Através da intervenção do estado.) 
E quem os fornecerá ao estado?
Cabe ao leitor responder à pergunta e também descobrir onde tudo isso vai chegar.

Fonte: Bastiat, Frédéric
A Lei / Frédéric Bastiat. – São Paulo : Instituto
Ludwig von Mises Brasil, 2010.
Bibliografia
1. Leis 2. Estado 3. Normas 4. Teorias Econômicas
5. Protecionismo I. Título.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Chevara e as 12 facetas de sua vida





12 razões pelas quais você deve jogar fora a sua camiseta do Che Guevara

De acordo com a mitologia esquerdista que foi construída ao longo dos últimos 50 anos,  Che Guevaraera um soldado nobre e corajoso que amava a liberdade e sacrificou sua vida para que outros pudessem alcançá-la. 

Há! Aqui estão os 13 fatos de Che que a esquerda NUNCA menciona. Treze coisas que, se fossem amplamente conhecidas, poderiam contribuir para diminuir em muito as vendas dessas ridículas camisetas.

1. A famosa viagem de motocicleta de Che pela América do Sul é mais um mito. A moto
quebrou no início da jornada e foi completada com outros meios de transporte.
2. Che foi apelidado de Chancho (porco) por seus colegas de escola, porque ele
raramente tomavam banho.
3. Logo depois que Batista foi derrubado, Guevara executou centenas de funcionários do
governo cubano. Observe que a frase “julgamento justo” estava conspicuamente ausente das
sentenças.
4. Che era um assassino brutal. Ele treinou e comandou pelotões de fuzilamento que
EXECUTARAM milhares de homens, mulheres e crianças considerados inimigos pelo
novo regime de Castro. Certa vez, ele atirou na cabeça de um companheiro de guerrilha, ao
qual suspeitava de deslealdade.
5. Che não era um fã da Primeira Emenda estadunidense. Ele se opôs à liberdade de
expressão, de religião, de imprensa, assembléias e protestos. Algo semelhante com a
famigerada Coréia do Norte?
6. Todos esses jovens universitários vestindo sua camiseta do Che podem se surpreender ao
saber que ele apoiou a repressão de rock n ‘ roll em Cuba.
7. Os homossexuais e gays não se davam bem na Cuba de Che. Ele montou uma campanha
para tê-los presos. 
8. Che nunca ganhou um Prêmio Nobel de Economia e com boa razão. Castro o colocou no comando
da economia cubana, mas o seu estridente comunismo imediatamente a colocou em uma moral
espiral econômica descendente.
9. Che fugiu de Cuba em meados dos anos 1960 não para espalhar o comunismo por todo o
hemisfério, mas porque ele tinha destruído totalmente sua vida privada. Ele era um adúltero
perdulário que desertou duas esposas, amantes e inúmeras crianças.
10. Che esperava que a crise dos mísseis cubanos levaria a uma guerra atômica. “O que nós
afirmamos é que devemos proceder ao longo do caminho da libertação”, disse ele, “mesmo que
isso custe milhões de vítimas atômicas”.
11. Os membros do culto de Che alegam que suas últimas palavras foram: “Eu sei que você está aqui
para me matar. Atire, covarde, você só está indo matar um homem. “No entanto, o general
Ovando, Chefe das Forças Armadas da Bolívia Forças, informou que Che morreu em batalha e que
suas últimas palavras foram bem menos nobres: “Eu sou Che Guevara e eu falhei.”
12. Outra versão de suas palavras finais é ainda mais patética. Longe da coragem de enfrentar a morte
como um mártir, os captores do Che informaram que ele implorou por sua vida, dizendo: “Não
atire! Eu sou Che Guevara e valo mais para você vivo do que morto.”



Fonte: Fonte: http://www.ihatethemedia.com/
Tradução: Emerson de Oliveira

Socialismo e democracia.


Sobre o Socialismo

Alexis de Tocqueville (1805-1859)

O texto a seguir reproduz o discurso de Alexis de Tocqueville na Assembléia Constituinte francesa em 12 de setembro de 1848. Os socialistas da época defendiam o direito ao trabalho, e que o governo deveria implementar políticas que criassem empregos assalariados para todos. Apesar de parecer lugar comum para os nossos dias, as idéias socialistas eram novidade na França de Tocqueville, e foram denunciadas por ele por ser contrárias aos ideais democráticos da república francesa. Mesmo prematura, a crítica de Tocqueville atinge o alvo dos problemas morais e políticos do socialismo.

Nada poderemos ganhar ao não discutir questões que põem em dúvida as raízes de nossa sociedade, questões essas que, mais cedo ou mais tarde, deverão ser enfrentadas. No fundo do projeto que está em discussão, talvez sem o conhecimento de seu autor – mas eu a percebo claramente – , está a questão do socialismo. [Longa excitação – murmúrios da esquerda.]

Sim, cavalheiros, mais cedo ou mais tarde, a questão do socialismo, que todos parecem temer e que ninguém até agora ousou debater, deverá ser discutida, e essa assembléia deverá decidi-la. Somos obrigados a esclarecer essa questão, que pesa sobre o peito da França. Confesso ser esse o meu principal motivo para subir à tribuna hoje: que a questão do socialismo seja finalmente resolvida. Eu preciso saber, a Assembléia nacional precisa saber, toda a França precisa saber – a Revolução de Fevereiro é uma revolução socialista ou não? [“Excelente!”]
Não é minha intenção analisar aqui os diferentes sistemas que possam ser classificados como socialistas. Apenas quero tentar revelar características comuns a todos eles e verificar se podemos dizer que a Revolução de Fevereiro as apresentou.
A primeira característica de todas as ideologias socialistas, creio eu, é um apelo vigoroso, extremo, às todas as paixões materiais dos homens. [Sinais de aprovação.]

Assim, alguns disseram: “Vamos reabilitar o corpo”; outros, que “o trabalho, mesmo os mais pesados, não deve ser apenas útil, mas prazeroso”; outros dizem que “os homens devem ser pagos não de acordo com seu mérito, mas de acordo com sua necessidade”; por fim, disseram aqui que o objetivo da Revolução de Fevereiro, do socialismo, seria proporcionar riquezas infinitas para todos.
Uma segunda característica, sempre presente, é um ataque, direto ou indireto, ao princípio da propriedade privada. Desde o primeiro socialista que disse, há 50 anos, que “a propriedade é a origem de todos os males do mundo”, ao socialista que falou dessa tribuna e que, menos generoso que o primeiro, passando da propriedade para seu proprietário, exclamou que “propriedade é roubo,” todos os socialistas, insisto, todos, atacam, direta ou indiretamente, a propriedade privada. [”É verdade, é verdade.”] Não pretendo afirmar que todos que o fazem agem da forma franca e brutal que um de nossos colegas adotou. Mas digo que todos os socialistas, por meios mais ou menos diretos, se não destroem o princípio sobre o qual ela se baseia, transformam-no, diminuem-no, obstruem-no, limitam-no e moldam-no como algo completamente estranho ao que nós conhecemos e com que nos familiarizamos, desde o começo dos tempos, como propriedade privada. [Sinais de concordância.]

Agora, a terceira e final característica, a qual, aos meus olhos, melhor descreve os socialistas de todas as escolas e nuances, é a profunda oposição à liberdade individual e o desprezo à liberdade de pensamento, ou seja, um total desrespeito ao indivíduo. Eles incessantemente tentam mutilar, restringir, obstruir a liberdade individual de toda e qualquer maneira. Afirmam que o Estado não deve agir apenas como diretor da sociedade, mas ser o mestre de cada homem, e não apenas o mestre, mas o guardião e instrutor. [ “Excelente.”] Por medo de permitir ao homem que erre, o Estado deve se colocar para sempre a seu lado, acima dele e em torno dele, para melhor guiá-lo e preservá-lo, ou seja, para confiná-lo. Na verdade, eles clamam pelo confisco da liberdade humana, em graus maiores ou menores, [Mais sinais de aprovação.], de forma que, se eu estivesse tentando resumir o que é o socialismo, diria que ele é simplesmente um novo sistema de servidão. [Grande aprovação.]

Não entrarei na discussão dos detalhes desses sistemas. Apenas indiquei o que é o socialismo, apontando suas características universais. Elas são suficientes para permitir sua compreensão. Em qualquer lugar que você encontrar essas características, certamente encontrará o socialismo, e onde quer que o socialismo esteja, essas características são encontradas.
Cavalheiros, será que o socialismo, como tantos disseram, é a continuação, a conclusão legítima, o aperfeiçoamento da Revolução Francesa? Será que ele é, como fingem alguns, o desenvolvimento natural da democracia? Não, ele não é um nem outro. Lembrem-se da Revolução! Reexaminem as impressionantes e gloriosas origens da nossa história moderna. Como insistia ontem um orador, foi através do apelo às necessidades materiais do homem que a Revolução Francesa realizou aqueles grandes atos que maravilhou todo o mundo? Vocês acreditam que a Revolução falava de salários, de bem estar, de riquezas ilimitadas, de satisfação das necessidades materiais?
Cidadão Mathieu: Eu não disse nada desse tipo.

Cidadão de Tocqueville: Você acredita que, ao falar dessas coisas, toda uma geração de homens se levantaria para lutar por elas nas fronteiras, se exporia aos riscos da guerra, enfrentariam a morte? Não, cavalheiros. A Revolução realizou aquilo tudo por falar sobre coisas grandiosas, sobre o amor a um país, sobre honrar a França, por falar de virtude, generosidade, abnegação, glória. Estejam certos, cavalheiros, que apenas através do apelo aos sentimentos mais nobres que se pode alcançar as alturas mais elevadas. [ “Excelente, excelente.” ]
E em relação à propriedade, cavalheiros: é verdade que a Revolução Francesa resultou em uma guerra dura e cruel contra alguns proprietários. Porém, em relação ao princípio da propriedade privada, a Revolução sempre o respeitou. Ela o colocou no topo da lista em suas constituições. Nenhum povo tratou esse princípio com maior respeito. Ele estava gravado na fachada de suas leis.

A Revolução Francesa fez ainda mais. Não apenas consagrou a propriedade privada, ela a universalizou. A Revolução viu um número ainda maior de pessoas terem acesso à propriedade. [ Exclamações variadas. “Exatamente o que queremos!”]
É graças a isso, cavalheiros, que hoje não precisamos temer as conseqüências fatais das idéias socialistas que estão espalhadas por todo o país. É porque a Revolução Francesa povoou o território francês com dez milhões de proprietários que nós podemos, sem perigo, permitir que essas doutrinas apareçam entre nós. Elas podem, sem dúvida, destruir a sociedade, mas graças à Revolução Francesa, elas não prevalecerão e não nos causarão danos. [ “Excelente.” ]

E finalmente, cavalheiros, a liberdade. Há uma coisa que me choca mais do que qualquer outra. É que o Antigo Regime, que sem dúvida diferia em muitos aspectos do sistema de governo que os socialistas reivindicam (e precisamos compreender isso), estava, em sua filosofia política, muito mais próximo do socialismo do que se pensa. Muito mais próximo do que estamos hoje. Na verdade, o Antigo Regime assegurava que somente o Estado era sábio e que os cidadãos são seres fracos e debilitados que devem ser eternamente guiados pela mão para que não se machuquem. Afirmava que era necessário obstruir, conter e restringir a liberdade individual; que, para assegurar a abundância dos bens materiais, era imperativo organizar a indústria e impedir a livre competição. Sob esse aspecto, o Antigo Regime propunha as mesmas coisas que os socialistas de hoje. Foi a Revolução Francesa que negou isso.

Cavalheiros, o que foi isso que quebrou as correntes que, de todos os lados, impediam a livre movimentação dos homens, dos bens e das idéias? O que restabeleceu a individualidade do homem, que é a sua verdadeira grandeza? A Revolução Francesa! [ Aprovação e clamor ] Foi a Revolução Francesa que aboliu todos esses obstáculos, que arrebentou as correntes que vocês trariam de volta sob um novo nome. E não foram apenas os membros dessa assembléia imortal – a Assembléia Constituinte, a assembléia que fundou a liberdade, não apenas na França, mas em todo o mundo – que rejeitaram as idéias do Antigo Regime. Foram os homens eminentes de todas as assembléias que a seguiram!

E após essa grande revolução, o resultado será aquela sociedade que os socialistas nos oferecem, uma sociedade formal, organizada, fechada, onde o Estado é responsável por tudo, onde o indivíduo não conta, onde a comunidade acumula todo o poder, toda a vida, onde o fim designado para um homem é apenas o seu bem estar material – essa sociedade em que o próprio ar sufoca e em que a luz mal consegue penetrar? Foi para essa sociedade de trabalhadores incansáveis, antes animais capacitados do que homens livres e civilizados, que a Revolução Francesa aconteceu? Foi por isso que tantos homens morreram no campo de batalha, na forca, que tanto sangue nobre molhou a terra? Foi por isso que tantas paixões foram inflamadas, que tanta inteligência, tanta virtude andou por essa terra?

Não! Eu juro pelos homens que morreram por essa grande causa! Não foi por isso que morreram. Foi por algo muito maior, mais sagrado, que merecia mais dedicação, deles e da humanidade. [“Excelente.”] Se ela aconteceu apenas para criarmos um sistema como esse, a Revolução foi um desperdício terrível. Um Antigo Regime aperfeiçoado teria servido adequadamente. [Clamor prolongado.]

Mencionei agora há pouco que o socialismo fingia ser a continuação legítima da democracia. Não pesquisei pessoalmente, como alguns de meus colegas fizeram, pela etimologia real dessa palavra, a democracia. Não vou revirar o jardim das raízes gregas, como foi feito ontem, para procurar a origem dessa palavra. [Risos.] Procuro pela democracia onde eu a vi, viva, ativa, triunfante, no único país da terra onde ela existe e no único lugar onde ela possivelmente poderia ter-se estabelecido com estabilidade no mundo moderno – na América. [Sussurros.]
Lá se encontra uma sociedade na qual as condições sociais são ainda mais iguais do que entre nós; em que a ordem social, os costumes, as leis, são todas democráticas; onde todos os tipos de pessoas entraram e onde cada indivíduo ainda possui uma completa independência, mais liberdade do que se tem notícia em qualquer outro lugar ou tempo; um país essencialmente democrático, as únicas repúblicas completamente democráticas que o mundo já conheceu. E nessas repúblicas procurar-se-á em vão o socialismo. Não apenas as teorias socialistas não cativaram a opinião pública, como possuem um papel tão insignificante na vida intelectual e política dessa grande nação que não se poderia nem ao menos dizer que as pessoas as temem.
Os Estados Unidos são, hoje, o único país no mundo onde a democracia é completamente soberana. Além disso, é o país onde as idéias socialistas, as quais os senhores presumem estar de acordo com a democracia, tiveram menor influência, o país onde aqueles que apóiam as causas socialistas estão, por certo, um uma posição de desvantagem. Eu, pessoalmente, não acharia inconveniente, se fossem para lá propagar sua filosofia, mas para seu próprio bem, eu não os aconselharia. [Risos]
Um deputado: As mercadorias deles estão sendo vendidas agora.

Cidadão de Tocqueville: Não, cavalheiro. A democracia e o socialismo não são conceitos interdependentes. Eles não são apenas diferentes, mas filosofias opostas. É compatível com a democracia instituir um governo intrometido, superabrangente e restritivo, desde que ele tenha sido escolhido pela população e aja em nome do povo? Será que o resultado não seria a tirania, sob o disfarce de um governo legítimo que, ao se apropriar dessa legitimidade asseguraria para si o poder e a onipotência que de outra forma lhe faltaria? A democracia expande a esfera da independência pessoal; o socialismo a confina. A democracia valoriza o que o homem tem de melhor; o socialismo faz de cada homem um agente, um instrumento, um número. A democracia e o socialismo só possuem uma coisa em comum – a igualdade. Mas percebam bem a diferença. A democracia visa a igualdade através da liberdade. O socialismo busca a igualdade pela força e a servidão. [ “Excelente, excelente.”]

Dessa forma, a Revolução de Fevereiro não deve ser “social”, e se é exatamente isso que ela não deve ser, devemos ter a coragem de dizê-lo. Se ela não deve ser isso, devemos ter energia para proclamar em voz alta que ela não deveria sê-lo, como faço agora. Quando alguém se opõe aos fins, deve se opor aos meios pelos quais se chega a esses fins. Quando alguém não possui nenhum desejo em relação ao fim, não deve entrar pelo caminho que levará até ele. O que foi proposto hoje foi a nossa entrada nesse caminho.
Não deveremos seguir aquela filosofia política que Baboeuf abraçou com tanto entusiasmo [gritos de aprovação] – Baboeuf, o avô de todos os socialistas modernos. Não devemos cair na armadinha que ele indicou, ou melhor, sugeriu, através de seu pupilo e biógrafo Buonarotti. Ouça às palavras de Buonarotti. Elas merecem atenção, mesmo depois de cinqüenta anos.
Um deputado: Não há babovistas aqui.

Cidadão de Tocqueville: “A abolição da propriedade individual e o estabelecimento da Grande Economia Nacional era o objetivo final de seus [de Baboeuf] trabalhos. Mas ele compreendeu bem que tal ordem não poderia ser estabelecida imediatamente após a vitória. Ele acreditava que seria essencial que o Estado agisse de tal forma que todas as pessoas aboliriam a propriedade privada através da realização de suas próprias necessidades e interesses.” Aqui estão os principais métodos que ele concebeu para realizar seu sonho. (Veja bem, ele é seu próprio panegirista, estou apenas citando.) “Para estabelecer, através das leis, uma ordem pública na qual os proprietários, provisoriamente autorizados a manter seus bens, descobririam que não possuiriam riquezas, nem o direito de dispor de seus bens ou receber por eles, em que, forçados a gastar uma grande parte de sua renda em investimentos ou impostos, esmagados sob o peso da tributação progressiva, afastados das questões públicas, privados de qualquer influência, formando, dentro do Estado, nada além de uma classe de estranhos suspeitos, seriam forçados a deixar o país, abandonar os seus bens ou limitar-se a aceitar o estabelecimento da Economia Universal.”
Um deputado: Nós já estamos nesse ponto!
Uma voz da esquerda: Sim! [ “Não! Não!” (interrupção)]
Cidadão de Tocqueville:: Aqui está, senhores, o programa de Baboeuf. Espero sinceramente que esse não seja o programa da República de Fevereiro. Não, a República de Fevereiro deve ser democrática e não socialista.
Uma voz da esquerda:Sim! [ “Não! Não!” (interrupção)]
Cidadão de Tocqueville: E se não for socialista, o que ela deverá ser?

Um deputado da esquerda: Monarquista!
Cidadão de Tocqueville (se virando para a esquerda): Ela poderá ser, talvez, se o Sr. deixar que isso aconteça, [ grande aprovação], mas ela não será.
Se a Revolução de Fevereiro não é socialista, o que, então, ela é? Será ela, como muitas pessoas dizem e acreditam, um mero acidente? Será que ela não necessariamente acarreta uma mudança completa no governo e nas leis? Eu acho que não.
Quando discursei em janeiro na Câmara dos Deputados, na presença da maioria dos delegados, que murmuravam em suas mesas, embora por diferentes razões, da mesma forma que vocês murmuravam agora a pouco – [ “Excelente, excelente”]
(O orador se vira à esquerda)

– eu lhes disse: cuidem-se. A Revolução está no ar. Será que vocês não conseguem senti-la? A Revolução se aproxima. Será que vocês não conseguem vê-la? Estamos sentados sobre um vulcão. Ficará registrado que eu disse isso. E por quê? – [Interrupção vinda da esquerda.]
Será que eu tive a fraqueza mental de supor que a revolução se aproximava porque esse ou aquele homem estava no poder, ou porque esse ou aquele acontecimento provocaram a raiva política da nação? Não, cavalheiros. O que me fez acreditar que a revolução se aproximava, o que realmente produziu a revolução, foi isso: eu vi a negação básica dos princípios mais básicos que a Revolução Francesa espalhou pelo mundo. O poder, a influência, as honras, e por que não, a própria vida, estavam sendo confinados dentro dos limites estreitos de uma só classe, como nenhum outro país do mundo antes fizera.
Foi isso que me fez acreditar que a revolução estava à nossa porta. Eu vi o que aconteceria a essa classe privilegiada, o que sempre acontece quando existem aristocracias pequenas e exclusivas. O papel de estadista não existia mais. A corrupção crescia a cada dia. A intriga tomou o lugar da virtude pública e tudo se deteriorou.

Como a classe mais alta

E entre as classes mais baixas, o que estava acontecendo? Cada vez mais se libertando, tanto intelectual quanto emocionalmente, daqueles cuja função era liderá-los, o povo em sua
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maioria se encontrou naturalmente inclinado em direção àqueles que lhes eram amigáveis, entre os quais estavam demagogos perigosos e utopistas inúteis daquele tipo com o qual temos nos ocupado aqui.

Por eu ter visto essas duas classes, uma pequena, outra numerosa, separando-se pouco a pouco uma da outra – uma imprudente, insensível e egoísta, outra cheia de inveja, resistência e raiva, por eu ter visto essas duas classes isoladas e avançando em direções opostas, eu disse – e tinha razões para isso – que a revolução estava levantando a sua cabeça e logo estaria sobre nós. [ “Excelente!”]
Era para estabelecer algo parecido com isso que a Revolução de Fevereiro aconteceu? Não, cavalheiros. Recuso-me a acreditar nisso. Tanto quanto qualquer um de vocês, acredito no contrário. Desejo o oposto, não apenas pelos interesses da liberdade, mas também pela segurança pública.

Eu admito que não trabalhei pela Revolução de Fevereiro, porém, tendo ela ocorrido, desejo que ela seja uma revolução séria e comprometida, porque desejo que seja a última. Sei que apenas revoluções dedicadas perduram. Uma revolução que não defende nada, que, contaminada com a esterilidade desde seu nascimento, que destrói sem construir, não faz nada além de dar à luz novas revoluções. [Aprovações.]
Assim, desejo que a Revolução de Fevereiro tenha um significado, claro, preciso e grande o suficiente para que todos vejam.
E qual é esse significado? Em resumo, a Revolução de Fevereiro deve ser uma continuação real, uma execução sincera e honesta daquilo que a Revolução Francesa defendia, deve ser a atualização daquilo que nossos pais ousaram sonhar. [ Grande concordância.]
Cidadão Ledru-Rollin: Peço permissão para falar.

Cidadão de Tocqueville: É isso que a Revolução de Fevereiro deve ser, nem mais nem menos. A Revolução Francesa defendia a idéia que, na ordem social, não deve haver classes. Ela nunca incentivou a divisão dos cidadãos em proprietários e proletários. Não se encontrará essas palavras, carregadas de ódio e guerra, em nenhum dos grandes documentos da Revolução Francesa. Pelo contrário, ela foi baseada na filosofia de que, politicamente, não devem existir classes; a Restauração, a Monarquia de Julho, defendiam o oposto. Devemos permanecer com nossos pais.
A Revolução Francesa, como já disse, não possuía a pretensão absurda de criar uma ordem social que colocava nas mãos do Estado o controle sobre o destino, o bem estar, a afluência de cada cidadão, que substituía a altamente questionável “inteligência” do Estado pela inteligência prática e útil dos governados. Ela acreditava que essa tarefa era grande o suficiente para garantir a cada cidadão esclarecimento e liberdade. [“Excelente”.]

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maioria se encontrou naturalmente inclinado em direção àqueles que lhes eram amigáveis, entre os quais estavam demagogos perigosos e utopistas inúteis daquele tipo com o qual temos nos ocupado aqui.
Por eu ter visto essas duas classes, uma pequena, outra numerosa, separando-se pouco a pouco uma da outra – uma imprudente, insensível e egoísta, outra cheia de inveja, resistência e raiva, por eu ter visto essas duas classes isoladas e avançando em direções opostas, eu disse – e tinha razões para isso – que a revolução estava levantando a sua cabeça e logo estaria sobre nós. [ “Excelente!”]
Era para estabelecer algo parecido com isso que a Revolução de Fevereiro aconteceu? Não, cavalheiros. Recuso-me a acreditar nisso. Tanto quanto qualquer um de vocês, acredito no contrário. Desejo o oposto, não apenas pelos interesses da liberdade, mas também pela segurança pública.
Eu admito que não trabalhei pela Revolução de Fevereiro, porém, tendo ela ocorrido, desejo que ela seja uma revolução séria e comprometida, porque desejo que seja a última. Sei que apenas revoluções dedicadas perduram. Uma revolução que não defende nada, que, contaminada com a esterilidade desde seu nascimento, que destrói sem construir, não faz nada além de dar à luz novas revoluções. [Aprovações.]
Assim, desejo que a Revolução de Fevereiro tenha um significado, claro, preciso e grande o suficiente para que todos vejam.
E qual é esse significado? Em resumo, a Revolução de Fevereiro deve ser uma continuação real, uma execução sincera e honesta daquilo que a Revolução Francesa defendia, deve ser a atualização daquilo que nossos pais ousaram sonhar. [ Grande concordância.]
Cidadão Ledru-Rollin: Peço permissão para falar.
Cidadão de Tocqueville: É isso que a Revolução de Fevereiro deve ser, nem mais nem menos. A Revolução Francesa defendia a idéia que, na ordem social, não deve haver classes. Ela nunca incentivou a divisão dos cidadãos em proprietários e proletários. Não se encontrará essas palavras, carregadas de ódio e guerra, em nenhum dos grandes documentos da Revolução Francesa. Pelo contrário, ela foi baseada na filosofia de que, politicamente, não devem existir classes; a Restauração, a Monarquia de Julho, defendiam o oposto. Devemos permanecer com nossos pais.
A Revolução Francesa, como já disse, não possuía a pretensão absurda de criar uma ordem social que colocava nas mãos do Estado o controle sobre o destino, o bem estar, a afluência de cada cidadão, que substituía a altamente questionável “inteligência” do Estado pela inteligência prática e útil dos governados. Ela acreditava que essa tarefa era grande o suficiente para garantir a cada cidadão esclarecimento e liberdade. [“Excelente”.]
A Revolução teve essa crença firme, nobre, orgulhosa, de que vocês parecem carecer, que é suficiente para homens corajosos e honestos ter essas duas coisas, esclarecimento e liberdade, e para não pedir nada mais daqueles que o governam.
A Revolução foi baseada nessa crença. Ela não determinava tempo ou meios de viabilizá-la. É nosso dever permanecermos com ela e, dessa vez, cuidar para que ela se realize.

Por fim, a Revolução Francesa desejava – e foi isso que a fez não apenas ser beatificada, mas santificada aos olhos da população – introduzir a caridade na política. Ela concebeu a noção de dever em relação aos pobres, aos que sofrem, algo mais extenso, mais universal do que qualquer coisa já implementada. É essa idéia que deve ser recapturada, não, repito, trocando a inteligência individual pela do Estado, mas agindo para ajudar aqueles que têm necessitades, aqueles que, após ter esgotado seus recursos, seriam jogados à miséria caso não lhes fosse oferecido auxílio, através de meios que o Estado já possui à sua disposição.

Essencialmente, é isso que a Revolução Francesa buscava, e é o que nós devemos fazer.
Então, eu pergunto?
Será que isso é socialismo?
Grito da esquerda: Sim! Sim, o socialismo é exatamente isso.
Cidadão de Tocqueville: De forma alguma!
Não, isso não é socialismo, mas cristianismo aplicado à política. E não há nada que…
(Interrupção…)
Cidadão Presidente: Você não pode ser ouvido. É obvio que você não possui a mesma opinião. Você terá a sua chance de falar da tribuna, mas não interrompa.

Cidadão de Tocqueville: Não há nada que dê aos trabalhadores o direito de fazer reivindicações ao Estado. Não há nada na Revolução que force o Estado a colocar-se no lugar da do cuidado individual, no lugar do mercado, no lugar da integridade individual. Não há nada que autorize o Estado a interferir nas questões industriais ou a impor suas regras à indústria, a tiranizar o indivíduo para governá-lo melhor, ou, como se afirma audaciosamente, para salvá-lo de si mesmo. Não há nada além do cristianismo aplicado à política.
Sim, a Revolução de Fevereiro deve ser cristã e democrática, mas ela não deve ser, sob qualquer circunstância, socialista. Essas palavras resumem o que eu penso e encerro aqui o que eu tinha a dizer.



segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A origem do totalitarismo


 1. O ANTISSEMITISMO COMO UMA OFENSA AO BOM SENSO

Muitos ainda julgam que a ideologia nazista girou em torno do antissemitismo por acaso, e que desse acaso nasceu a política que inflexivelmente visou perseguir e, finalmente, exterminar os judeus. O horror do mundo diante do resultado derradeiro, e, mais ainda, diante do seu efeito, constituído pelos sobreviventes sem lar e sem raízes, deu à “questão judaica” a proeminência que ela passou a ocupar na vida política diária. O que os nazistas apresentaram como sua principal descoberta — o papel dos judeus na política mundial — e o que propagavam como principal alvo — a perseguição dos judeus no mundo inteiro — foi considerado pela opinião pública mero pretexto, interessante truque demagógico para conquistar as massas. É bem compreensível que não se tenha levado a sério o que os próprios nazistas diziam. Provavelmente não existe aspecto da história contemporânea mais irritante e mais misti..cador do que o fato de, entre tantas questões políticas vitais, ter cabido ao problema judaico, aparentemente insignificante e sem importância, a duvidosa honra de pôr em movimento toda uma máquina infernal. Tais discrepâncias entre a causa e o efeito constituem ultraje ao bom senso a tal ponto que as tentativas de explanar o antissemitismo parecem forjadas com o ..to de salvar o equilíbrio mental dos que mantêm o senso de proporção e a esperança de conservar o juízo. Uma dessas apressadas explicações identifica o antissemitismo com desenfreado nacionalismo e suas explosões de xenofobia. Mas, na verdade, o antissemitismo moderno crescia enquanto declinava o nacionalismo tradicional, tendo atingido seu clímax no momento em que o sistema europeu de Estados-nações, com seu precário equilíbrio de poder, entrara em colapso.
Os nazistas não eram meros nacionalistas. Sua propaganda nacionalista era dirigida aos simpatizantes e não aos membros convictos do partido. Ao contrário, este jamais se permitiu perder de vista o alvo político supranacional. O “nacionalismo” nazista assemelhava-se à propaganda nacionalista da União Soviética, que também é usada apenas como repasto aos preconceitos das massas. Os nazistas sentiam genuíno desprezo, jamais abolido, pela estreiteza do nacionalismo e pelo provincianismo do Estado-nação. Repetiram muitas vezes que seu movimento, de âmbito internacional (como, aliás, é o movimento bolchevista), era mais importante para eles do que o Estado, o qual necessariamente estaria limitado a um território específico. E não só o período nazista mas os cinquenta anos anteriores da história antissemita dão prova contrária à identificação do antissemitismo com o nacionalismo. Os primeiros partidos antissemitas das últimas décadas do século xix foram os primeiros a coligar-se em nível internacional. Desde o início, convocavam congressos internacionais, e preocupavam-se com a coordenação de atividades em escala internacional ou, pelo menos, intereuropeia. Tendências gerais, como o declínio do Estado-nação coincidente com o crescimento do antissemitismo, não podem ser explicadas por uma única razão ou causa. Na maioria desses casos, o historiador depara com situação histórica complexa, na qual tem a liberdade (e isto quer dizer perplexidade) de isolar um determinado fator como correspondente ao “espírito da época”. Existem, porém, algumas regras gerais que são úteis. A principal delas é a definição, por Tocqueville (em L’Ancien Régime et la Révolution, livro ii , capítulo 1), dos motivos do violento ódio das massas francesas contra a aristocracia no início da Revolução — ódio que levou Burke a observar que a Revolução se preocupava mais com “a condição de um cavalheiro” do que com a instituição de rei. Segundo Tocqueville, o povo francês passou a odiar os aristocratas no momento em que perderam o poder, porque essa rápida perda de poder não foi acompanhada de qualquer redução de suas fortunas. Enquanto os nobres dispunham de vastos poderes, eram não apenas tolerados mas respeitados. Ao perderem seus privilégios, e entre eles o privilégio de explorar e oprimir, o povo descobriu que eles eram parasitas, sem qualquer função real na condução do país. Em outras palavras, nem a opressão nem a exploração em si chegam a constituir a causa de ressentimento: mas a riqueza sem função palpável é muito mais intolerável, porque ninguém pode compreender — e consequentemente aceitar — por que ela deve ser tolerada. 

O antissemitismo alcançou o seu clímax quando os judeus haviam, de modo análogo, perdido as funções públicas e a in..uência, e quando nada lhes restava senão sua riqueza. Quando Hitler subiu ao poder, os bancos alemães, onde por mais de cem anos os judeus ocupavam posições-chave, já estavam quase judenrein — desjudaizados —, e os judeus na Alemanha, após longo e contínuo crescimento em posição social e em número, declinavam tão rapidamente que os estatísticos prediziam o seu desaparecimento em poucas décadas. É verdade que as estatísticas não indicam necessariamente processos históricos reais: mas é digno de nota que, para um estatístico, a perseguição e o extermínio dos judeus pelos nazistas pudessem parecer uma insensata aceleração de um processo que provavelmente ocorreria de qualquer modo, em termos da extinção do judaísmo alemão.

O mesmo é verdadeiro em quase todos os países da Europa ocidental. O Caso Dreyfus não ocorreu no Segundo Império, quando os judeus da França estavam no auge de sua prosperidade e influência, mas na Terceira República, quando eles já haviam quase desaparecido das posições importantes (embora não do cenário político). O antissemitismo austríaco tornou-se violento não sob o reinado de Metternich e Francisco José, mas na República austríaca após 1918, quando era perfeitamente óbvio
que quase nenhum outro grupo havia sofrido tanta perda de influência e prestígio em consequência do desmembramento da monarquia dos Habsburgos quanto os judeus. A perseguição de grupos impotentes, ou em processo de perder o poder, pode não constituir um espetáculo agradável, mas não decorre apenas da mesquinhez humana. O que faz com que os homens obedeçam ou tolerem o poder e, por outro lado, odeiem aqueles que dispõem da riqueza sem o poder é a ideia de que o poder tem uma determinada função e certa utilidade geral. Até mesmo a exploração e a opressão podem levar a sociedade ao trabalho e ao estabelecimento de algum tipo de ordem. Só a riqueza sem o poder ou o distanciamento altivo do grupo que, embora poderoso, não exerce atividade política são considerados parasitas e revoltantes, porque nessas condições desaparecem os últimos laços que mantêm ligações entre os homens. A riqueza que não explora deixa de gerar até mesmo a relação existente entre o explorador e o explorado; o alheamento sem política indica a falta do menor interesse do opressor pelo oprimido. Contudo, o declínio dos judeus na Europa ocidental e central forma apenas o pano de
fundo para os eventos subsequentes, e explica tão pouco esses eventos como o fato de a aristocracia ter perdido o poder explicaria a Revolução Francesa. Conhecer essas regras gerais é importante, para que seja possível refutar as insinuações do aparente bom senso, segundo as quais o ódio violento ou a súbita rebelião são necessariamente decorrentes do exercício de forte poder e de abusos cometidos pelos que constituem o alvo do ódio, e que, consequentemente, o ódio organizado contra os judeus só pode ter surgido como reação contra sua importância e o seu poderio. 

Fonte: Origem do totalitarismo -  Hannah Arendt