segunda-feira, 16 de março de 2015

Os Interesses de Classe da Burguesia

Um dos pontos de partida do pensamento de Karl Marx era o dogma de que o capitalismo, embora totalmente prejudicial à classe trabalhadora, favorece os interesses de classe da burguesia, e que o socialismo, enquanto frustra apenas as reivindicações injustas da burguesia, é altamente benéfico a toda a humanidade. Estas ideias foram desenvolvidas pelos socialistas e comunistas franceses, e reveladas ao público alemão em 1842 por Lorenz von Stein em seu livro volumoso, Socialismo e Comunismo na França Contemporânea. Marx adotou sem qualquer escrúpulo esta doutrina e tudo o que ela implicava. Nunca lhe ocorreu que o seu dogma fundamental precisava ser demonstrado, e que os conceitos utilizados por ela precisavam de uma definição. Ele jamais definiu os conceitos de classe social, de interesses de classe e seus conflitos. Ele nunca explicou por que o socialismo serve melhor aos interesses de classe dos proletários e aos verdadeiros interesses de toda a humanidade do que qualquer outro sistema. Esta atitude tem sido, até os dias de hoje, o traço característico de todos os socialistas. 

Eles simplesmente tomam como um fato consumado que a vida sob o socialismo será paradisíaca. Quem quer que ouse perguntar as razões disso será desmascarado, apenas por fazê-lo, como um apologista vendido aos interesses de classe dos exploradores.

A filosofia marxista da história ensina que o que trará o advento do socialismo será o funcionamento das leis inerentes à própria produção capitalista. Com a inexorabilidade de uma lei da natureza, a produção capitalista produzirá a sua própria negação.29 Como nenhuma formação social desaparece antes que sejam desenvolvidas todas as forças produtivas que ela é capaz de sustentar,30 o capitalismo deve se desenvolver integralmente antes que chegue o momento da emergência do socialismo. A evolução livre do capitalismo, desimpedida por qualquer interferência política é, portanto, do ponto de vista marxista, altamente benéfica para os interesses de classe – teríamos que dizer “corretamente entendidos” ou de longo prazo – dos proletários. De acordo com o Manifesto Comunista, à medida que o progresso do capitalismo leva-o à sua maturidade e, por consequência, ao seu colapso, o trabalhador “afunda cada vez mais” e “se torna um indigente”. Mas, visto sub specie aeternitatis, do ponto de vista do destino da humanidade e dos interesses de longo prazo do proletariado, esta “massa de miséria, opressão, escravidão, degradação e exploração” é, na realidade, tida como um passo adiante no caminho rumo à felicidade eterna. Parece, portanto, não apenas vão, mas claramente contrário aos interesses – corretamente entendidos – da classe trabalhadora empreender tentativas – necessariamente vãs – de se melhorar as condições dos assalariados através de reformas dentro da estrutura do capitalismo. Logo, Marx rejeitava os esforços dos sindicatos trabalhistas de aumentar os salários e diminuir as jornadas de trabalho. O mais ortodoxo de todos os partidos marxistas, os Social-Democratas alemães, votou durante a década de 1880, no Reichstag, contra todas as medidas da célebre Sozialpolitik de Bismarck, incluindo sua característica mais espetacular, a previdência social. Da mesma maneira, na opinião dos comunistas, o New Deal americano era apenas um plano - fadado ao fracasso - que visava salvar o capitalismo, moribundo, ao adiar o seu colapso e, por consequência, a aparição do milênio socialista. 

Se os empregadores se opuserem ao que costuma ser chamado de legislação “trabalhista”, não estarão sendo, consequentemente, culpados por combater aqueles que Marx considerava serem os reais interesses da classe proletária. Pelo contrário; ao praticamente libertar a evolução econômica dos grilhões através dos quais os pequeno-burgueses ignorantes, burocratas e pseudo-socialistas utópicos e humanitários como os fabianos, pretendem retardá-la, eles acabam servindo à causa trabalhista e ao socialismo. O próprio egoísmo dos exploradores se transforma num benefício para os explorados e para toda a humanidade. Será que Marx – caso tivesse sido capaz de seguir suas próprias ideias até as suas últimas consequências lógicas – não teria ficado tentado a dizer, juntamente com Mandeville, “vícios privados, benefícios públicos”, ou, com Adam Smith, que os ricos “são guiados por uma mão invisível” a tal ponto que “sem tencioná-lo, sem sabê-lo, eles estão promovendo os interesses da sociedade”?

Marx, no entanto, estava sempre ávido por concluir seu raciocínio antes do ponto no qual suas contradições inerentes acabariam por ficar evidentes. Neste ponto seus seguidores copiaram a atitude do mestre. Os burgueses, tanto capitalistas quanto empresários, afirmam estes discípulos inconsistentes de Marx, estão interessados na conservação do sistema de laissez-faire. Opõem-se a toda e qualquer tentativa de aliviar o fardo da classe mais numerosa, mais útil e mais explorada dos homens; estão empenhados em interromper o progresso; são reacionários comprometidos com a tarefa – obviamente impossível – de atrasar o relógio da história. O que quer que se possa pensar acerca destes desabafos apaixonados, repetidos cotidianamente por jornais, políticos e governos, não se pode negar que eles são incompatíveis com os princípios essenciais do marxismo. De acordo com um ponto de vista marxista consistente, os defensores daquela legislação que é chamada de trabalhista são pequeno-burgueses reacionários, enquanto aqueles que os marxistas chamam de provocadores dos trabalhadores são arautos progressivos da bem-aventurança que está por vir. 

Em sua ignorância a respeito de todos os problemas econômicos, os marxistas não se deram conta de que o burguês dos dias de hoje, aqueles que já são capitalistas e empresários ricos, na sua condição de burgueses, não têm um interesse egoísta na conservação do laissez-faire. Sob o sistema de laissez-faire sua posição eminente é ameaçada diariamente pelas ambições dos recém-chegados que têm menos dinheiro que eles. Leis que colocam obstáculos diante de novatos talentosos são prejudiciais aos interesses dos consumidores, enquanto protegem aqueles que já têm uma posição econômica consolidada contra a competição dos intrusos. Ao tornar mais difícil para um homem de negócios a obtenção de lucro, e ao cobrar impostos sobre a maior parte destes lucros obtidos, eles acabam por impedir o acúmulo de capital por parte dos recém-chegados e eliminam, assim, o incentivo que impulsionaria as empresas mais antigas a se esforçar, da melhor maneira possível, em servir aos consumidores.

Medidas que protegem os menos eficientes contra a competição dos mais eficientes e leis que têm como meta a redução ou o confisco de lucros são conservadoras, ou até reacionárias, do ponto de vista marxista; elas tendem a impedir as melhorias tecnológicas e o progresso econômico, e preservar a ineficiência e o atraso. Se o New Deal tivesse sido implementado em 1900, e não em 1933, o consumidor americano teria sido privado de muitas coisas que são fornecidas, nos dias de hoje, por empresas que tiveram seu crescimento nas primeiras décadas do século, e que partiram de um começo insignificante até atingir uma importância nacional e uma produção de massa. 

O ápice desta falta de compreensão dos problemas industriais é a animosidade mostrada contra as grandes empresas e contra os esforços das pequenas em se tornarem grandes. A opinião pública, sob a influência do marxismo, considera a “grandeza” de uma empresa como um dos piores vícios do mundo dos negócios e apoia todo tipo de plano projetado para impedir ou prejudicar as grandes empresas através de ações governamentais. Não há qualquer tipo de compreensão do fato de que é apenas isso - a grandeza nos negócios - que torna possível fornecer às massas todos aqueles produtos que o americano médio da atualidade não consegue viver sem. Bens de luxo para os poucos podem ser produzidos em estabelecimentos pequenos. Bens de luxo para os muitos precisam de grandes indústrias. Os políticos, professores e líderes sindicais que amaldiçoam as grandes empresas estão lutando por um padrão de vida mais baixo. Seguramente não estão defendendo os interesses dos proletários. E, no final das contas, são eles – exatamente do ponto de vista da doutrina marxista – os reais inimigos do progresso e das melhorias das condições dos trabalhadores

Fonte: Título
TEORIA E HISTÓRIA - UMA INTERPRETAÇÃO DA EVOLUÇÃO SOCIAL E ECONÔMICA
Título original em inglês: Theory and History: An Interpretation of Social and Economic Evolution
Autor Ludwig von Mises
Esta obra foi editada por: Instituto Ludwig von Mises Brasil
Rua Iguatemi, 448, conj. 405 – Itaim Bibi
São Paulo – SP Tel: (11) 3704-3782

quinta-feira, 12 de março de 2015

Impedir que o governo esconda a depreciação

A maior vantagem do esquema proposto, em outras palavras, está no fato de ele impedir os governos de “protegerem” as moedas que emitem contra as consequências adversas de suas próprias medidas e, assim, de impedir que os governantes continuem adotando essas medidas prejudiciais. Os governos perderiam a capacidade de camuflar a depreciação do dinheiro que emitem, de impedir a evasão de divisas, de capital e de outros recursos – evasão essa decorrente do fato de seu uso doméstico ter-se tornado desfavorável – e perderiam a possibilidade de controlar preços, de tomar medidas que tenderiam, é claro, a destruir o Mercado Comum. O programa proposto poderia, naturalmente, atender a todas as exigências de um mercado comum, de maneira mais satisfatória do que uma moeda
comum o faria e sem a necessidade de estabelecer um novo organismo internacional ou de conferir novos poderes a uma autoridade supranacional.

No final das contas, o programa equivaleria à substituição dos meios circulantes nacionais somente no caso de as autoridades monetárias nacionais se comportarem mal. Mesmo que isso acontecesse ainda seria possível evitar a total substituição da moeda nacional, caso as autoridades mudassem rapidamente seu comportamento. É possível que, em alguns países muito pequenos, com comércio internacional e turismo muito intensos, a moeda de um dos países maiores pudesse tornar-se predominante, mas, uma vez que se adotasse uma política sensata, não haveria razão para que a maior parte das moedas existentes não continuasse a ser usada por muito tempo. (Seria, é claro, importante que não houvesse entre as partes um acordo tácito no sentido de não fornecer uma moeda tão boa, que os cidadãos das outras nações a preferissem! E a culpa seria sempre, é claro, atribuída ao governo cujo dinheiro não agradasse ao público).

Não creio que este esquema impedisse os governos de fazer o que quer que fosse em prol do bom funcionamento da economia, ou que, a longo prazo, beneficiasse qualquer grupo importante. Isto, no entanto, suscita questões complexas que serão melhor analisadas ao aprofundarmos o exame do postulado básico.

Fonte: H417d Hayek, Friedrich A.
Desestatização do Dinheiro / Friedrich A. Hayek. --
São Paulo : Instituto Ludwig von Mises. Brasil, 2011.
p.166

segunda-feira, 2 de março de 2015

A sociedade de status e o capitalismo



A sociedade de status e o capitalismo

Antes de responder a esta pergunta, é necessário distinguir melhor a característica inconfundível do capitalismo em contraste com a da sociedade de status.

É muito frequente comparar os empresários e capitalistas da economia de mercado com os aristocratas da sociedade de status. A base da comparação está na existência, em ambos os grupos, de homens relativamente ricos em contraste com as condições relativamente limitadas dos outros homens. Contudo, o uso desta metáfora impede que se compreenda a diferença fundamental entre os ricos aristocratas e os ricos “burgueses” ou capitalistas.

A fortuna de um aristocrata não é um fenômeno do mercado; não se origina do fornecimento aos consumidores e não pode ser diminuída nem mesmo afetada por qualquer ação da parte do público. Ela provém da conquista ou da liberalidade por parte de um conquistador. Pode extinguir-se pela revogação por parte do doador ou pela perda violenta por parte de outro conquistador, ou pode ser dissipada por esbanjamento. O senhor feudal não atende consumidores e está imune aos dissabores da ralé.

Os empresários e capitalistas devem sua fortuna às pessoas que, enquanto fregueses, sustentam os seus negócios. Eles a perdem, inevitavelmente, assim que outras pessoas os superam num atendimento aos consumidores de forma melhor e mais barata.

A finalidade deste ensaio não é descrever as condições históricas que criaram as instituições de casta e status a subdivisão das pessoas em grupos hereditários com diferentes camadas, direitos, reivindicações e privilégios ou incapacidades legalmente justificadas.

A única coisa que conta para nós é o fato de a preservação dessas instituições feudais ser incompatível com o sistema do capitalismo. A abolição dessas instituições e o estabelecimento do princípio de igualdade perante a lei removeram as barreiras que impediam a humanidade de desfrutar de todos os benefícios que o sistema de propriedade privada dos meios de produção bem como de empresa privada torna possível.

Numa sociedade baseada em camadas, status ou castas, a situação de vida do indivíduo é fixada. Ele nasce em certa categoria e sua posição na sociedade é rigidamente determinada pelas leis e costumes que designam a cada membro de sua classe privilégios e deveres ou incapacidades definidas.

Excepcionalmente, a boa ou má sorte poderá em casos raros elevar um indivíduo a uma camada superior ou rebaixá-lo a uma inferior. Porém, via de regra, as condições de cada membro de uma ordem ou camada definida somente poderão melhorar ou piorar com uma mudança nas condições de todos os seus membros. Fundamentalmente, o indivíduo não é o cidadão de uma nação; ele é membro de um estado (Stand, état) e somente como tal indiretamente integrado no corpo de sua nação. Ao entrar em contato com um compatriota pertencente a uma outra camada, não se sente em comunhão com ele.

 Percebe apenas o abismo que o separa do status da outra pessoa. Essa diferença refletiu-se na linguística bem como nos usos indumentários. Sob o ancien regime, os aristocratas europeus falavam, de preferência, francês. O terceiro estado usava o vernáculo enquanto as camadas inferiores da população urbana e os camponeses apegavam-se aos dialetos locais, jargões e gírias quase sempre incompreensíveis para as pessoas cultas. As várias camadas vestiam-se de modo diferente. Ninguém deixava de reconhecer a qual camada pertencia até um estranho.

A principal crítica que os enaltecedores dos bons velhos tempos dirigem contra o princípio de igualdade perante a lei é a de que ele aboliu os privilégios de camada e dignidade. Segundo eles, tal princípio “atomizou” a sociedade, dissolveu suas subdivisões “orgânicas” em massas “amorfas”. Essas massas agora dominam, e seu materialismo mesquinho superou os padrões nobres das épocas passadas. O dinheiro é rei. Muitas pessoas sem valor desfrutam de riquezas e abundância, ao passo que pessoas de mérito e valor seguem de mãos vazias.

Esta crítica tacitamente supõe que sob o ancien regime, os aristocratas se distinguiam por sua virtude e que deviam sua posição e rendimentos à superioridade moral e cultural. Torna-se muito necessário
pôr fim a esta fábula. Sem expressar qualquer julgamento de valor, o historiador não pode deixar de enfatizar que a alta aristocracia dos principais países europeus era descendente dos soldados, cortesãos e cortesãs que, nas lutas religiosas e constitucionais dos séculos XVI e XVII, sabiamente puseram-se do lado dos que permaneceram vitoriosos em seus respectivos países.

Se, por um lado, os conservadores e os inimigos “progressistas” do capitalismo discordam em relação à avaliação dos antigos padrões, por outro, eles concordam plenamente em condenar os padrões da sociedade capitalista. A seu ver, quem conquista fortuna e prestígio não são as pessoas de reconhecido valor, mas sim as frívolas e inúteis. Ambos os grupos parecem desejar a substituição dos métodos manifestamente injustos vigentes sob o capitalismo laissez-faire por métodos mais justos de “distribuição”.

Ora, nunca se contestou que, no capitalismo sem obstáculos, saem se melhor aqueles que, do ponto de vista dos padrões de valores eternos, devem ser os preferidos. O que a democracia capitalista de mercado faz não é premiar as pessoas de acordo com seus “verdadeiros” méritos, valor próprio e dignidade moral. O que torna um homem mais ou menos próspero não é a avaliação de sua contribuição a partir de um princípio “absoluto” de justiça, mas a avaliação por parte de seus semelhantes, que aplicarão somente o critério de suas necessidades, desejos e objetivos pessoais. O sistema democrático de mercado é exatamente isto. Os consumidores são supremos — isto é, soberanos. Desejam ser satisfeitos. 

Milhões de pessoas gostam de beber Pinkapinka, uma bebida preparada pela multinacional Pinkapinka Company. Milhões gostam de histórias de detetive, filmes de mistério, jornais que trazem histórias em quadrinhos, touradas, lutas de boxe, uísque, cigarros e gomas de mascar. Milhões elegem governos ávidos para armar e patrocinar a guerra. Assim, os empresários que fornecem de forma melhor e mais barata todas as coisas necessárias à satisfação desses desejos tornam-se ricos. O que conta na estrutura da economia de mercado não são os julgamentos acadêmicos de valor mas as avaliações verdadeiramente manifestadas pelas pessoas ao comprar ou deixar de comprar.

Para quem reclama da injustiça do sistema de mercado, cabe somente um conselho: se quiser enriquecer, tente satisfazer o público oferecendo-lhe algo mais barato ou de que ele goste mais. Tente superar a Pinkapinka fabricando uma nova bebida, A igualdade perante a lei lhe dá o poder de desafiar qualquer milionário. Será — num mercado não sabotado por restrições impostas pelo governo — culpa exclusivamente sua se você não conseguir sobrepujar o rei do chocolate, a estrela de cinema e o campeão de boxe.

Mas, se você, em vez das riquezas que talvez conseguisse ao escolher o ramo do vestuário ou do boxe profissional, preferir a satisfação obtida ao escrever poemas ou filosofia, está livre para agir assim. Então, com certeza, você não ganhará tanto dinheiro quanto os que servem a maioria das pessoas. Porque essa é a lei da democracia econômica de mercado. Aqueles que satisfazem um número menor de pessoas conseguem menos votos — dinheiro — do que os que satisfazem os desejos de mais pessoas, na caça ao dinheiro, a estrela de cinema supera o filósofo; os fabricantes de Pinkapinka superam o compositor de sinfonias.

É importante entender que a oportunidade de competir pelas recompensas que a sociedade tem para distribuir é uma instituição social. Ela não pode remover ou aliviar as desvantagens inatas com as quais a natureza discriminou muitas pessoas. Não pode alterar o fato de que muitos nascem doentes ou se tornam deficientes no correr da vida. O equipamento biológico do homem restringe de forma radical o campo em que ele irá agir. A classe daqueles que têm condições de pensar por si está nitidamente separada da classe dos que não têm essas condições.

Fonte: V947i von Mises, Ludwig.
A Mentalidade Anticapitalista / Ludwig von Mises. --
São Paulo : Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.
125p.
Tradução de: Carlos dos Santos Abreu
1. Capitalismo 2. Liberalismo 3. Economia 4. Liberdade
5. Socialismo I. Título.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Propriedade, Contrato, Agressão, Capitalismo, Socialismo


Antes de avançar para o mais estimulante campo de análise de diferentes projetos políticos a partir do ponto de vista da teoria econômica e da filosofia política, é essencial introduzir e explicar os conceitos básicos usados ao longo do presente estudo. De fato, os conceitos explicados neste capítulo (de propriedade, contrato, agressão, capitalismo e socialismo) são tão básicos, tão fundamentais que não se pode evitar utilizá-los, mesmo que às vezes de forma implícita. Infelizmente, porém, o próprio fato de que na análise de qualquer espécie de ação humana e/ou de qualquer tipo de relacionamento interpessoal é preciso usar esses conceitos não significa que todos tenham um entendimento preciso deles. Parece ser exatamente o contrário. Porque o conceito de propriedade é, por exemplo, tão básico e todos parecem ter alguma compreensão imediata sobre ele, que a maioria das pessoas nunca reflete cuidadosamente sobre o assunto e pode, em consequência, chegar no máximo a uma definição vaga. Partir de definições imprecisas ou fictícias e construir uma rede complexa de pensamento sobre elas só podem conduzir a um desastre intelectual. Pois as imprecisões originais e as lacunas irão permear e distorcer tudo o que delas derivam. Para evitar esse problema, o conceito de propriedade dever ser antes esclarecido.

Depois do conceito de ação, a propriedade é a categoria conceitual mais fundamental dentro das ciências sociais. Na verdade, todos os outros conceitos a serem apresentados neste capítulo – agressão, contrato, capitalismo e socialismo – são definíveis de acordo com a propriedade: agressão sendo agressão contra a propriedade, contrato sendo um relacionamento não-agressivo entre proprietários, socialismo sendo uma política institucionalizada de agressão contra a propriedade, e o capitalismo sendo uma política institucionalizada de reconhecimento da propriedade e do contratualismo.

Comecemos com uma explicação da condição prévia necessária para o conceito de propriedade emergir.12 Para que surja um conceito de propriedade deve haver uma escassez de bens. Se não houver escassez, e todos os bens forem chamados de “bens gratuitos”, cujo uso por qualquer pessoa para qualquer finalidade não excluísse (ou interferisse ou restringisse) de alguma maneira seu uso por qualquer outra pessoa para qualquer outro propósito, a propriedade, então, não seria necessária. Se, digamos, devido a alguma superabundância paradisíaca de bananas, meu consumo atual de bananas não reduzisse meu próprio suprimento futuro de bananas (e possivelmente o consumo), nem o presente nem o futuro suprimento de bananas de qualquer outra pessoa, então, a atribuição dos direitos de propriedade, neste caso se referindo às bananas, seria supérfluo. Para desenvolver o conceito de propriedade é necessário que os bens sejam escassos, de modo que seja possível surgir conflitos sobre o uso desses bens. É função dos direitos de propriedade evitar esses possíveis conflitos sobre o uso dos recursos escassos através da atribuição de direitos de propriedade exclusiva. A propriedade é, dessa forma, um conceito normativo, concebido para tornar possível uma interação livre de conflitos pela estipulação de regras de conduta (normas) mútuas e vinculativas em relação aos recursos escassos.13 Não é preciso observar muito para verificar que há, na verdade, uma escassez de bens, de todos os tipos de bens, em qualquer lugar, e assim se torna evidente a necessidade dos direitos de propriedade. Na realidade, até mesmo se assumirmos que vivemos no Jardim do Éden, onde haveria uma imensa abundância de tudo o que era preciso não apenas para sustentar a vida de alguém, mas para saciar cada conforto simplesmente estendendo as mãos para pegar o que fosse necessário, o conceito de propriedade teria que, necessariamente, ser desenvolvido. Pois até mesmo sob essas circunstâncias “ideais”, cada corpo físico de um indivíduo ainda seria um recurso escasso e por isso existiria a necessidade de estabelecer regras de propriedade, ou seja, regras relativas ao corpo das pessoas. 

As pessoas não estão acostumadas a pensar em seu próprio corpo como um bem escasso, mas ao imaginar a situação mais ideal que se pode esperar, como o Jardim do Éden, torna-se possível perceber que o corpo de alguém é realmente o protótipo de um bem escasso para que o uso dos direitos de propriedade, ou seja, os direitos de propriedade exclusiva, sejam de alguma maneira estabelecidos com a finalidade de evitar conflitos.

Na realidade, enquanto uma pessoa age14, ou seja, enquanto uma pessoa tenta intencionalmente alterar um estado de coisas que é subjetivamente percebido e avaliado como menos satisfatório para um estado que parece mais recompensador, essa ação envolve necessariamente uma escolha relativa ao uso do corpo desse indivíduo. E escolher, preferindo uma coisa ou estado a outro, significa, evidentemente, que nem tudo, que nem todos os prazeres e satisfações possíveis, podem ser desfrutados ao mesmo tempo, mas que algo considerado menos valioso deve ser preterido com a finalidade de obter alguma outra coisa considerada mais valiosa15. Assim, escolher sempre resulta em custos: renunciar possíveis prazeres porque os meios necessários para obtê-los são escassos e estão ligados a algum uso alternativo que promete retornos muito mais valiosos do que as oportunidades perdidas.16 Até no Jardim do Éden eu não poderia, simultaneamente, comer uma maçã, fumar um cigarro, tomar uma bebida, subir numa árvore, ler um livro, construir uma casa, brincar com meu gato, dirigir um carro etc. Eu teria que fazer escolhas e só poderia realizar essas ações em sequência. E seria assim porque só há um corpo que eu posso utilizar para realizá-las e para
desfrutar a satisfação advinda de cada uma dessas realizações. 

Eu não tenho uma abundância de corpos que me permitiria aproveitar, simultaneamente, todas as satisfações possíveis num único momento de êxtase. Num outro aspecto, eu também estaria limitado pela escassez: na medida em que esse recurso escasso chamado de “corpo” não é indestrutível e nem equipado com saúde e energia eternas, mas um organismo com apenas um tempo de vida limitado, o tempo também é escasso. O tempo utilizado para buscar o objetivo A reduz o tempo disponível para perseguir outros objetivos. E quanto mais tempo se gasta para atingir o resultado desejado, maiores serão os custos envolvidos na espera e maior deve ser a satisfação esperada para justificar esses custos. Portanto, por causa da escassez do corpo e do tempo, até mesmo no Jardim do Éden teriam que ser estabelecidas regulamentações de propriedade. Sem elas, e admitindo agora que existe mais de uma pessoa, que o alcance de sua ações se sobrepõem, e que não há uma preestabelecida harmonia e sincronização de interesses entre esses indivíduos, os conflitos sobre o uso do próprio corpo seriam inevitáveis. Eu, por exemplo, poderia querer usar o meu corpo para desfrutar uma xícara de chá enquanto outra pessoa poderia querer começar um relacionamento amoroso com meu corpo, me impedindo assim de beber o chá e também reduzindo o tempo disponível para buscar meus próprios objetivos por meio deste corpo. Para evitar esses possíveis conflitos, devem ser criadas regras de propriedade exclusiva. Na verdade, desde que haja ação, há necessidade de se estabelecerem regras de propriedade. Para manter as coisas simples e livres de detalhes que distraiam a atenção, continuemos a admitir, por outra extensão da análise, que nós, de fato, habitamos o Jardim do Éden, onde exclusivamente um corpo de alguém, o espaço que ocupa e o tempo são recursos escassos. O que o protótipo de um bem escasso pode nos dizer acerca da propriedade e de seus derivados conceituais? 

Enquanto que até mesmo num mundo com um único tipo de recurso escasso todas as espécies de normas que regulam a propriedade exclusiva em relação aos meios escassos sejam concebíveis a princípio (por exemplo, uma norma como “às segundas-feiras eu determino o uso dos nossos corpos, às terças-feiras você determina o uso etc.”), é certo que nem todas as normas teriam a mesma chance de serem propostas e aceitas. Então, parece ser mais adequado iniciar a análise com a norma de propriedade, que seria mais provável de ser aceita pelos habitantes do Éden como a “posição natural” em relação à atribuição de direitos de propriedade exclusiva nos corpos. Na verdade, nesse estágio do argumento ainda não estamos preocupados com a ética e com o problema da justificação moral das normas. Dessa forma, enquanto pode ser muito bem admitido desde o início que estou realmente debatendo tardiamente que a posição natural é a única moralmente defensável, e que embora eu esteja convencido de que esta é natural porque é moralmente defensável, neste momento, natural não sugere qualquer conotação moral. É simplesmente uma categoria sóciopsicológica usada para indicar que essa posição provavelmente encontraria um maior apoio na opinião pública. Realmente, sua naturalidade é expressa pelo próprio fato de que ao falar sobre corpos também é quase impossível evitar o uso de expressões possessivas (indicativo de posse). Um corpo é normalmente classificado como um corpo específico dealguém: meu corpo, o seu, o dele etc. (e, consequentemente, acontece o
mesmo quando se fala de ações!), e ninguém tem o menor problema paradistinguir o que é meu, seu etc. Claramente, ao fazê-lo, alguém estáatribuindo títulos de propriedade e distinguindo entre proprietários privados e recursos escassos.

Qual é, então, a posição natural em relação à propriedade contida namaneira natural de se falar sobre corpos? Toda pessoa tem o direitoexclusivo de propriedade de seu corpo dentro dos limites de sua superfície.Todo indivíduo pode usar seu corpo para o que ele considera ser o melhor para seus interesses imediatos e de longo prazo, bem-estar ou satisfação, desde que não interfira nos direitos de outra pessoa de controlar o uso de seu próprio corpo. Essa “propriedade” do próprio corpo significa o direito dealguém para convidar (ou concordar com) outra pessoa a fazer algo com o respectivo corpo: meu direito de fazer com o meu corpo tudo o que euquiser, o que inclui o direito de pedir e de deixar que alguém use o meucorpo, ame-o, examine-o, injete nele medicamentos ou drogas, altere suaaparência física e até mesmo agrida, danifique ou mate-o, se isso for o que eu gostar e concordar. Relações interpessoais desse tipo são e serãochamadas de trocas contratuais. Elas são caracterizadas pelo fato de queum acordo sobre o uso dos recursos escassos é obtido, acordo este baseado no respeito mútuo e no reconhecimento de cada um e de todos osparceiros de troca sobre o domínio do controle exclusivo de seusrespectivos corpos. Por definição, essas trocas contratuais, embora, em retrospecto, não sejam necessariamente vantajosas para cada um e paratodos os parceiros de troca (não gostei da minha aparência depois da cirurgia, mesmo que o médico tenha feito exatamente aquilo que eu pedique ele fizesse no meu rosto) são sempre, e necessariamente, mutuamentevantajosas para cada participante ex ante, caso contrário, a trocasimplesmente não se realizaria.

Se, por outro lado, uma ação executada indesejadamente invade oualtera a integridade física do corpo de outra pessoa, fazendo um uso deleque não agrada a esta outra pessoa, essa ação, de acordo com a posiçãonatural em relação à propriedade, é chamada de agressão.Seria agressãose uma pessoa tentasse satisfazer seus desejos sexuais ou sádicosmediante estupro ou batendo em outra pessoa sem que ela tenhaexpressamente consentido. E também seria agressão se uma pessoa fosseimpedida fisicamente de executar determinadas ações com seu próprio corpo que poderiam não agradar outra pessoa (como o uso de meias rosa ou de cabelo cacheado, ou beber diariamente, ou primeiro dormir e depois filosofar em vez do contrário), mas que se de fato fossem executadas não iriam, por si só, provocar uma mudança na integridade física do corpo dequalquer outra pessoa.19 Então, por definição, um ato agressivo significa, sempre e necessariamente, que uma pessoa, ao executá-lo, aumenta seu prazer às custas da diminuição do prazer de outra.

Qual é a razão fundamental implícita dessa posição natural em relação à propriedade? Na base da teoria natural da propriedade reside a ideia debasear a atribuição de um direito exclusivo de propriedade na existência deum vínculo objetivo, intersubjetivamente determinável, entre o proprietário e a propriedade, e, mutatis mutandis, de identificar como agressivas todas asreivindicações de propriedade que só podem invocar a seu favor umaevidência puramente subjetiva. Enquanto eu posso alegar a meu favor, no que se refere ao meu direito de propriedade sobre o meu corpo, o fato objetivo de que eu fui o primeiro ocupante desse corpo – seu primeiro usuário – qualquer outra pessoa que pretenda ter o direito de controlar esse mesmo corpo nada pode alegar nesse sentido. Ninguém poderia considerar o meu corpo como sendo um produto de sua vontade da mesma forma como eu posso considerá-lo um produto da minha vontade; essa pretensão ao direito de determinar o uso desse recurso escasso que chamo de “meu corpo” seria uma reivindicação de não-usuários, de não-produtores, e estaria baseada exclusivamente na opinião subjetiva, ou seja, numa declaração meramente verbal de que as coisas deveriam ser desta ou daquela forma. Obviamente, essas pretensões verbais também poderiam apontar (e quase sempre irão) para certos fatos (”Eu sou maior, mais esperto, mais pobre ou muito especial etc.”.), e poderiam, dessa forma, tentar legitimar-se. Mas fatos como esses não estabelecem (e nem poderiam estabelecer) qualquer vínculo objetivo entre um determinado recurso escasso e uma pessoa específica. No que se refere a cada recurso específico, a propriedade de cada um pode ser, por essa razão, estabelecida ou rejeitada. Esse direito de propriedade, surgido do nada e com vínculos puramente verbais entre proprietários e as coisas possuídas, é chamado de agressivo, segundo a teoria natural da propriedade. Quando comparado com esta, meu direito de propriedade sobre o meu corpo pode apontar para um determinado vínculo natural; e assim o é porque meu corpo foi produzido, e tudo o que foi produzido (em contraste com as coisas “dadas”) tem, logicamente, uma determinada conexão com algum produtor (ou produtores) definido; neste caso, eu próprio. Para evitar qualquer equívoco, “produzir” não quer dizer “criar do nada” (afinal, meu corpo também é uma coisa dada naturalmente); significa alterar uma coisa naturalmente dada de acordo com um plano de transformar a natureza. Isso também não quer dizer “transformar toda e qualquer parte da coisa” (afinal, meu corpo tem muitas partes em relação às quais eu nunca fiz nada!); ao invés disso, significa transformar uma coisa dentro de (incluindo ou excluindo) limites, ou, ainda mais precisamente, criar delimitações para as coisas. E, finalmente, “produzir” também não quer dizer que o processo de produção tenha que continuar indefinidamente (afinal, às vezes estou dormindo e o meu corpo não é, certamente, um produto das minhas ações nesse momento), apenas significa que algo foi produzido no passado e pode ser reconhecido como tal. São essas reivindicações de propriedade, que podem ser derivadas de esforços produtivos delimitadores passados e que podem ser ligadas a indivíduos específicos enquanto produtores, que lembram o “natural” e “nãoagressivo”.

As ideias do capitalismo e do socialismo devem estar um pouco mais claras neste momento. Mas antes de deixar o Jardim do Éden de uma vez por todas, dever-se-ia olhar para as consequências da introdução, no paraíso, dos elementos da propriedade estabelecida agressivamente, pois isso ajudaria a esclarecer, pura e simplesmente, o problema social e econômico central de cada tipo de socialismo real, ou seja, do socialismo num mundo de completa escassez, cuja análise detalhada é a preocupação Até mesmo na terra do leite e do mel, as pessoas poderiam, evidentemente, escolher diferentes estilos de vida, definir objetivos diversos, ter padrões diferentes a respeito de que tipo de personalidade gostariam de desenvolver e sobre quais realizações prefeririam se empenhar para conquistar. Realmente, não haveria necessidade de se trabalhar para ganhar a vida enquanto houvesse uma superabundância de tudo. Mas, drasticamente falando, uma pessoa ainda poderia escolher se tornar um bêbado ou um filósofo, o que significa dizer, mais tecnicamente, que poderia optar entre usar o corpo de uma forma mais ou menos compensadora do ponto de vista do agente, ou usá-lo de uma maneira em que os resultados só seriam colhidos num futuro mais ou menos distante. Decisões como as mencionadas devem ser chamadas de “decisões de consumo”. Decisões, por outro lado, de usar o corpo em troca de um retorno posterior, ou seja, decisões induzidas por alguma recompensa ou satisfação previstas num futuro mais ou menos distante, exigindo do gente superar a desutilidade da espera (o tempo é escasso!), devem ser chamadas de “decisões de investimento” – decisões que significam investir no “capital humano”, no capital incorporado no próprio corpo físico dos capítulos seguintes.

Admitamos agora que a propriedade estabelecida agressivamente seja introduzida. Considerando que, antes, cada pessoa era a proprietária exclusiva de seu corpo e poderia decidir se tornar um bêbado ou um filósofo, agora se instituiu um sistema no qual o direito da pessoa de determinar como usar o seu corpo é cerceado ou completamente eliminado, e este direito é, em parte ou totalmente, delegado a outra pessoa que não está naturalmente ligada ao respectivo corpo como seu produtor. Qual seria a consequência disso? A abolição da propriedade privada do corpo de alguém pode ter amplas consequências: os não-produtores podem ter o direito de determinar todos os usos do meu corpo durante todo o tempo, ou o direito de fazê-lo pode ser restrito em relação ao tempo e/ou aos domínios, e essas restrições podem ser novamente flexibilizadas (com os não-produtores tendo o direito de modificar as definições restritivas ao seu bel prazer) ou determinadas de uma vez por todas, e, portanto, as consequências podem, obviamente, ser mais ou menos drásticas. Mas, independentemente do nível, a socialização da propriedade sempre, e necessariamente, produz dois tipos de resultados. O primeiro, “econômico” no sentido mais estrito do termo, é a redução no montante do investimento no capital humano, conforme definido anteriormente. O proprietário natural de um corpo não pode deixar de tomar decisões em relação àquele corpo na medida em que não comete suicídio e decide permanecer vivo, não importa o quão restritos estejam seus direitos de propriedade. 

Mas já que ele não pode mais decidir sobre si mesmo, sem ser importunado, sobre o que fazer com o próprio corpo, o valor que atribuiu ao seu corpo é agora menor; a satisfação desejada, o ganho psíquico, isto é, o que ele pode obter do seu próprio corpo ao utilizá-lo para determinadas ações, é reduzido porque a gama de opções disponíveis foi limitada. Então, como cada ação implica, necessariamente, em custos (como explicado anteriormente), e com uma dada inclinação para superar os custos em troca de um lucro ou recompensa esperados, o proprietário natural é confrontado com uma situação em que os custos da ação devem ser reduzidos para trazê-los de volta ao patamar do ganho menor presumido. No Jardim do Éden, há somente uma forma de fazê-lo: encurtando o tempo de espera, reduzindo a sua desutilidade, e optando por um curso de ação que promete retornos antecipados. Assim, a introdução da propriedade estabelecida agressivamente conduz a uma tendência de diminuição das decisões de investimento e de favorecimento das decisões de consumo. 

Em termos drásticos, tal quadro leva a uma inclinação de transformar filósofos em bêbados. Essa tendência é permanente e mais evidente quando a ameaça de intervenção contra os direitos de propriedade natural for permanente, e é menor na medida em que tal ameaça esteja restrita em certas épocas e domínios. Mas, em todo caso, a taxa de investimento no capital humano é menor do que seria se o direito de controle exclusivo dos proprietários naturais sobre seus corpos permanecesse intacto e absoluto.

A segunda consequência deve ser qualificada de social. A introdução da propriedade estabelecida agressivamente significa uma mudança na estrutura social, uma alteração na composição da sociedade em relação à personalidade e aos tipos de comportamento. Abandonar a teoria natural da propriedade resulta numa redistribuição de renda. O ganho psíquico das pessoas na qualidade de usuários do “próprio” corpo natural, de pessoas que se expressam através de seus corpos, e se satisfazem ao fazê-lo, é reduzido às custas de um aumento do ganho psíquico daquelas pessoas na qualidade de invasores dos corpos de terceiros. Tornou-se relativamente mais difícil e mais caro obter satisfação no uso do próprio corpo sem invadir o de outros, e relativamente menos difícil e caro auferir satisfação ao usar o corpo de outros para seus próprios fins. Esse fato por si só não implica qualquer mudança social, mas uma vez que uma única hipótese empírica é demonstrada, passa a implicar: admitindo-se que há o desejo humano de se satisfazer às custas de uma perda de satisfação do outro pela instrumentalização do corpo de um terceiro, algo que não pode ser incutido em todos e na mesma proporção, mas que existe, às vezes e até certo ponto, em algumas pessoas, e que, de modo concebível, pode ser suprimido, estimulado e até favorecido por um determinado regime institucional, as consequências são iminentes. E, seguramente, essa hipótese é verdadeira. Dessa forma, a redistribuição de oportunidades para a obtenção de ganho deve resultar em mais pessoas utilizando a agressão para obter uma satisfação pessoal e/ou mais pessoas tornando-se mais agressivas, ou seja, alterando suas condutas de maneira crescente de nãoagressivas para agressivas, e, como resultado, modificando lentamente as suas personalidades. Essa mudança na estrutura do caráter, na composição moral da sociedade, conduz, por sua vez, a outra redução no nível de investimento no capital humano.

Em resumo, as duas consequências que detalhamos são as razões mais fundamentais de por que o socialismo é um sistema de regime de propriedade economicamente inferior. De fato, ambos os resultados reaparecerão repetidamente no curso das análises seguintes dos regimes políticos socialistas. Tudo o que resta agora é explicar a teoria natural da propriedade no que diz respeito à escassez no mundo real, pois este é o ponto de partida de todas as formas do socialismo real. Inobstante algumas diferenças evidentes entre os corpos e outros recursos escassos, todas as distinções conceituais podem ser realizadas e aplicadas novamente sem dificuldades: ao contrário dos corpos, que nunca são “sem dono”, mas sempre tem um proprietário natural, todos os outros recursos escassos podem não ter donos. Este é o caso, na medida em que permanecem em seu estado natural sem serem utilizados por alguma pessoa. Eles só se tornam propriedade de alguém quando são tratados como meios escassos, ou seja, tão logo sejam ocupados em alguns limites objetivos e utilizados por alguém de forma específica. Esse ato de adquirir recursos sem proprietários anteriores é chamado de “apropriação original”.22 Uma vez que esses recursos sem dono são apropriados, tornase agressão modificar, sem consentimento do proprietário, suas características físicas ou restringir sua variedade de usos, conquanto que um uso específico não afete as características físicas da propriedade de um terceiro – exatamente como no caso dos corpos. Somente no curso de um relacionamento contratual, ou seja, quando o proprietário natural dos meios escassos concorda explicitamente, é possível para um terceiro utilizar e alterar coisas previamente adquiridas. E apenas se o proprietário original ou anterior transferir deliberadamente seu título de propriedade para outra pessoa, tanto numa troca ou como um presente gratuito, esse terceiro pode se tornar o proprietário de tais coisas. Porém, ao contrário dos corpos, que pela mesma razão “natural” nunca podem não ter donos e também nunca podem ser abdicados completamente pelo proprietário natural, mas podem ser apenas “emprestados” enquanto durar o acordo entre os donos, naturalmente, todos os demais recursos escassos podem ser alienados e o dono pode renunciar para sempre à sua propriedade. Um sistema social baseado nessa posição natural sobre a atribuição dos direitos de propriedade é, e será a partir de agora, chamado de sistema puramente capitalista. E uma vez que suas ideias também podem ser entendidas como as ideias dominantes do direito privado, ou seja, das normas reguladoras das relações entre os privados, também deve ser chamado de sistema puro de lei privada. Esse sistema é fundado na ideia de que para ser considerado não-agressivo as reivindicações de propriedade devem estar apoiadas (resguardadas) pelo fato “objetivo” de um ato de apropriação original, de uma propriedade anterior, ou por uma relação contratual mutuamente benéfica. Tal relação tanto pode ser uma cooperação deliberada entre proprietários ou uma transferência intencional de títulos de propriedade de alguém para um terceiro. Se esse sistema for alterado e substituído por uma política que atribui direitos, ainda que parciais, de controle exclusivo sobre os meios escassos a pessoas ou grupos que não podem ser remetidas a um ato de uso prévio dos recursos em questão, e nem a uma relação contratual com algum usuário-proprietário anterior, então, esse sistema será qualificado como
socialismo (parcial). 

O objetivo dos quatro capítulos seguintes será explicar como diferentes formas de desvio de um sistema puramente capitalista, formas diversas de redistribuição dos títulos de propriedade retirando-os dos proprietários naturais das coisas (ou seja, das pessoas que colocaram recursos específicos em usos específicos e por isso estão naturalmente vinculados a eles, para pessoas que ainda nada fizeram com os recursos, mas que tãosomente fizeram uma reivindicação declaratória verbal sobre os recursos) reduz os investimentos e aumenta o consumo, além de provocar uma mudança na composição da população ao favorecer pessoas improdutivas em detrimento das produtivas.

Fonte:Título: Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo
Autor: Hans-Hermann Hoppe

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A crítica de Orwell

A crítica de Orwell
Não surpreende que foi O Caminho da Servidão que levou Orwell e Hayek a serem publicados juntos. Orwell resenhou criticamente o livro junto ao The Mirror of Past de Konni Zilliacus na edição de 9 de abril de 1944 do The Observer. O homem que publicaria a Revolta dos Bichos (1945) e 1984, cinco anos depois, concordava em diversos pontos com a obra de Hayek. Ele escreveu:
 Em resumo, a tese do Professor Hayek é de que o socialismo inevitavelmente leva ao despotismo, e que, na Alemanha, os nazistas foram capazes de ter sucesso porque os socialistas já tinham feito grande parte do trabalho, em especial, o trabalho intelectual de enfraquecer o desejo pela liberdade. Por deixar a vida das pessoas sob o controle do Estado, o socialismo necessariamente concede o poder a um grupo fechado de burocratas que, em quase todos os casos, será composto por homens que querem o poder pelo poder e farão tudo o possível para mantê-lo. O Reino Unido, ele afirma, está seguindo o mesmo caminho da Alemanha, com os intelectuais da ala esquerdista na vanguarda e o Partido Conservador seguindo-os de perto. A única salvação reside no retorno a uma economia não planificada, de livre concorrência, e uma ênfase na liberdade em detrimento da segurança. Na parte negativa da tese do Professor Hayek existe uma grande porção de verdade. Não se pode dizer com frequência – de qualquer forma, não está sendo dito nem suficientemente – que o coletivismo não é inerentemente democrático, mas, pelo contrário, que ele concede a uma minoria tirânica poderes com os quais os inquisidores espanhóis nunca sonharam.
Esse é um aval significativo, pois ninguém compreendia o totalitarismo tão bem como Orwell. Realmente, em Porque Orwell Importa, Christopher Hitchens destaca que 1984 impressionou os membros do partido comunista além da Cortina de Ferro. Ele citou Czeslaw Milosz, poeta polonês e prêmio Nobel, que antes de desertar para o Ocidente era um diplomata do governo comunista polonês: “Orwell fascina (os membros do Partido Interno) por meio de sua compreensão clara dos detalhes que eles tão bem conhecem... mesmo aqueles que conhecem Orwell somente por ouvir falar ficam pasmados que um escritor que nunca viveu na Rússia tenha uma percepção tão clara sobre seu funcionamento”. (“Um entrevista gravada com Hitchens sobre Orwell está disponível aqui”.). Mas fiel ao seu socialismo esquerdista de estado, Orwell não poderia endossar o programa positivo de Hayek:
O professor Hayek está provavelmente certo em dizer que nesse país os intelectuais são mais propensos ao totalitarismo do que as pessoas comuns. Mas ele não vê ou não admite que um retorno à “livre” concorrência significa para a grande massa das pessoas uma tirania provavelmente pior, por ser mais irresponsável, do que aquela do Estado. O problema das concorrências é que alguém as ganha. O professor Hayek nega que o capitalismo livre necessariamente leva ao monopólio, mas na prática isso é para onde levou, e dado que a vasta maioria das pessoas preferiria de longe ter a arregimentação do Estado do que favelas e desemprego, é provável que o impulso em direção ao coletivismo continue se a opinião popular tiver algo a dizer na questão. … o capitalismo leva a filas de pedintes, à corrida pelos mercados e à guerra. O coletivismo leva a campos de concentração, veneração a um líder e à guerra. Não há como fugir disso a não ser que uma economia planificada possa, de alguma forma, ser combinada com a liberdade de intelecto, o qual somente pode ocorrer caso o conceito de certo ou errado for restaurado à política.

Tratamento negligente
É frustrante ver Orwell dar tão pouca atenção à tese positiva de Hayek. Ele [Orwell] é superficial e dogmático, o que é inconveniente para um intelectual sério como Orwell. Sua ignorância econômica salta aos olhos.
 “[Um] retorno à “livre” concorrência significa para a grande massa das pessoas uma tirania provavelmente pior, por ser mais irresponsável, do que aquela do Estado”. É difícil acreditar que alguém tão familiar com o estalinismo poderia ter escrito isso. Mesmo sem saber muito sobre economia, ele poderia realmente ter pensado que o que ocorre nas sociedades orientadas para o mercado, mesmo durante as depressões, poderia ser pior do que a fome que Stalin infligiu sobre os ucranianos, os julgamentos e as execuções teatrais ou mesmo os campos de trabalhos forçados na Sibéria?
 “O problema das concorrências é que alguém as ganha”. Em um mercado, os produtores competem para melhor servir aos consumidores. Os perdedores daquela concorrência não são exilados ou executados. Eles encontram outras formas de servir aos consumidores, assim como os produtores estão tentando servi-los. 
“O professor Hayek nega que o capitalismo livre necessariamente leva ao monopólio, mas na prática isso é para onde levou...” Onde o monopólio surgiu sem a ajuda do Estado? Nós não encontramos nenhum monopólio gerado pelo mercado na Inglaterra e nos Estados Unidos. Lá, grandes interesses empresariais ativamente promoveram o protecionismo e outras intervenções precisamente para atrapalhar o processo de concorrência e proteger suas fatias de mercado. É claro que para muitas pessoas, Orwell presumivelmente entre eles, isso é capitalismo, um tópico que eu retomo abaixo (eu deveria frisar que Hayek renunciou ao laissez faire em seu livro, mas esse é um tópico para outra oportunidade).
 “A vasta maioria das pessoas preferiria de longe ter a arregimentação do Estado a favelas e desemprego...” Essa é uma escolha falsa. Favelas e desemprego, como Hayek e seu mentor Ludwig von Mises pensavam, são produtos da manipulação da moeda e das taxas de juros por parte do banco central, isto é, do governo e não do livre mercado. A Grande Depressão, que deve ter pairado na mente de Orwell, não foi uma exceção. A real escolha é entre a liberdade e a segurança (incluindo a ajuda mútua) de um lado, e a “arregimentação” do Estado, favelas e desemprego do outro. 
Eu devo fazer uma pausa para focar no uso vergonhoso de Orwell para a palavra “arregimentação”. Eu digo “vergonhoso” porque ele próprio cometeu o pecado tão eloquentemente condenado no seu famoso ensaio A Política e a Língua Inglesa: o pecado do eufemismo. Nele, escreveu: 
Em nosso tempo, o discurso político são escritos em sua maioria em defesa do indefensável. Coisas como a continuação do governo inglês na Índia, os expurgos e deportações na Rússia, o uso das bombas atômicas no Japão, podem realmente serem defendidas, mas somente por meio de argumentos que são muito brutais para a maioria das pessoas encararem e que não estão de acordo com os objetivos declarados dos partidos políticos. Assim, a linguagem política tem de consistir basicamente de eufemismos, questões escapistas, de total nebulosidade e incerteza. Vilas indefesas são bombardeadas, os habitantes são obrigados a fugir para o interior, o gado é fuzilado, os casebres são incendiados: isso é chamado de pacificação. Milhões de camponeses são expulsos de suas fazendas, carregando nas costas o pouco que conseguem: isso é chamado de transferência de população ou retificação de fronteiras. As pessoas são presas por anos sem julgamento, ou mortas com um tiro do pescoço, ou enviadas para morrer em campos de concentração no Ártico: isso é chamado de eliminação de elementos inconfiáveis. 
Tal fraseologia é necessária se alguém deseja dar nome a coisas sem gerar figuras mentais. Considere, por exemplo, algum professor de inglês defendendo confortavelmente o totalitarismo russo: ele não pode dizer diretamente: “eu acredito em matar seus oponentes quando você pode obter bons resultados se assim proceder”. Provavelmente, ele dirá o seguinte:  
“Embora reconhecendo que o regime soviético exibe certas características, as quais o humanitário pode tender a deplorar, nós devemos, eu acho, concordar que certa redução do direito à oposição política é um inevitável acompanhante dos períodos de transição, e que o sofrimento que os russos têm sido convocados a suportar tem sido amplamente justificado na esfera das realizações concretas”.
Arregimentação é o mínimo que acontece em um regime totalitário.

Capitalismo x Livre Mercado
 “[O] Capitalismo leva a filas de pedintes, à corrida por mercados e à guerra.” Eu acho que parte do problema para Orwell é que um verdadeiro livre mercado não está entre as opções possíveis. Para ele e muitos outros, a escolha está entre um sistema administrado pelos empreendedores e um sistema administrado pelos trabalhadores (a alternativa preferível não é óbvia). Nessa visão, a primeira é o capitalismo, às vezes disfarçado de “livre mercado” e a segunda é o socialismo. Não deveríamos ser tão duros com Orwell por pensar dessa forma, pois muitos defensores do mercado são igualmente descuidados quando escrevem sobre economias mistas tais como àquela dos Estados Unidos. 
Apesar de toda essa intervenção governamental maligna, nós frequentemente ouvimos a conduta dos negócios defendida porque “sob o capitalismo” os consumidores tem o poder de punir as empresas que não lhes atendem bem. Fale isso para os consumidores que decidem não comprar carros da GM e da Chrysler. Fale isso para pessoas que perderam sua propriedade por ações de domínio eminente, de maneira que grandes empresas possam prosperar. Gerações de intervenções pro-negócios em certa medida devem ter manipulado o mercado contra consumidores e trabalhadores. Se não, do que os economistas estão reclamando?
E no que se refere à inclusão da guerra na sua lista, seja dito que a luta pelos mercados e outros objetivos econômicos não podem ser uma condição suficiente para a guerra. A guerra requer o Estado, isto é, a socialização dos custos por meio da tributação e o serviço militar obrigatório.
Uma pessoa se pergunta como Orwell evitou o desespero. Ele não podia aceitar o capitalismo (de estado), e viu as tendências totalitárias do socialismo de perto. Ainda assim, ele poderia escrever, “não existe uma solução para isso a não ser uma economia planificada que, de alguma forma, seja combinada com a liberdade de intelecto, o que só pode acontecer se o conceito de certo e errado for restaurado à política” (ênfase do autor). Ele não leu o capítulo 11 da obra de Hayek, “O Fim da Verdade”, no qual Hayek descreveu como um comprometimento sério com a planificação central deve produzir “desrespeito pela liberdade intelectual”? 
A palavra “verdade” em si deixa de ter seu antigo sentido. Ela não descreve mais algo a ser buscado, com a consciência individual como o único juiz de se qualquer exemplo particular de evidência (ou a reputação daqueles que estão defendendo-o) justifica uma crença; ela torna-se algo a ser estabelecido pela autoridade, o qual deve ser aceito no interesse da união dos esforços organizados e o qual pode ser alterado de acordo com as exigências desse esforço organizado. 
O clima intelectual geral produzido por isso, a sensação de cinismo completo em relação à verdade, a perda do sentido até mesmo do significado da verdade, o desaparecimento do espirito de investigação independente e da crença no poder da convicção racional, a forma pela qual as diferenças de opinião em todos os ramos do conhecimento tornam-se questões políticas a serem decididas pela autoridade, são todas coisas que o indivíduo deve pessoalmente experimentar – nenhuma breve descrição pode transmitir sua experiência. 
Mas é óbvio que Orwell tinha experimentado tais coisas na Espanha e sabia como era na Rússia. Ele certamente colocou um grande peso naquela expressão “de alguma forma”. Como restaurar o conceito de certo ou errado na política tornaria a planificação central ou decente ou prática é um mistério que ninguém desvendou. (É claro, Mises havia mostrado muito antes que o socialismo não poderia ser prático porque, sem preços oriundos da troca privada dos meios de produção, o planificador socialista não poderia realizar cálculos racionais com respeito ao que deveria ser produzido, de que forma e em quais quantidades).
Para finalizar de forma parcialmente otimista, embora Orwell presumivelmente não concordasse, a planificação econômica central não está na agenda atual. A ameaça hoje não é o socialismo de estado. É o corporativismo burocrático vestido como democracia progressista.
// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Russ Silva
Fonte: Libertarianismo
Escrito por Sheldon Richman

sábado, 14 de fevereiro de 2015

O viés anti-mercado de Hitler

O viés anti-mercado de Hitler

Historiadores econômicos há muito tempo sabem que a base da política econômica nazista foi a autarquia. Eles levaram a sério o absurdo sobre os perigos do comércio exterior e tentaram verdadeiramente eliminar a “dependência” da Alemanha em relação ao resto do mundo. O que eu soube apenas recentemente, contudo, foi que, em meados de 1940, Hitler tinha tido uma mudança de pensamento: “O curso da guerra mostra que fomos muito longe em nossos esforços para alcançar a autarquia. 
É impossível tentar e produzir tudo que nos falta por meio de processos sintéticos ou outras medidas.” (Hitler para o Ministro de Guerra Fritz Todt, 20 de Junho, 1940, reimpresso em Nazism,
19191945, vol. 3)

É claro, isso não significa que Hitler decidiu que Bastiat estava certo acima de tudo. Não, a epifania de Hitler foi que o real perigo não era “depender” de produtos externos, mas sim pagar por eles. Nós devemos seguir outro caminho e devemos conquistar as coisas que necessitamos. O único compromisso de mão de obra que irá ser requerido não será tão grande quanto aquele que será continuamente necessário para as fábricas sintéticas. Assim, nosso objetivo deve ser assegurar todos aqueles territórios que são de interesse especial para nossa economia de defesa através da conquista. Eu tenho lido sobre a história da Alemanha Nazista por décadas, mas declarações como essa ainda me surpreendem. O prêmio pelo mundo estava à venda a preços de barganha, e pessoas como Hitler que pensavam “deve existir uma forma mais fácil. Eu sei – vamos matar uns aos outros”.

Por: Bryan Caplan é professor de economia na George Mason University e
autor dos livros "The Myth of the Rational Voter: Why Democracies
Choose Bad Policies " e "Selfish Reasons to Have More Kids". Atualmente
está escrevendo o seu novo livro, "The Case Against Education" e para o
blog EconLog.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

MEU PRIMO, O CHE

MEU PRIMO, O CHE
Por Alberto Benegas Lynch (h)
Serviços para LIBERPRESS

Agora que você já se acalmou um pouco as águas de mais um aniversário da morte de Che Guevara, eu escrevo sobre este personagem macabro com todos os ingredientes que, em parte, introduz uma outra perspectiva. 

Na minha família tem falado bastante de Che, porque o meu pai era um primo seu. O avô do assunto de outrora era uma excelente pessoa, Roberto Guevara Lynch casado com Anita, irmã de minha avó materna. Por genealogia de trem, eu declaro que sou mais Benegas Lynch como meu pai e minha mãe descendente de dois dos filhos de Patrick Lynch, que também cai Che. Input este revolucionário nascido revelou uma propensão para a violação de sua palavra, pois ele prometeu a sua primeira namorada que iria comprar cigarros e nunca mais voltou. Também mostrou algumas peculiaridades a envidar esforços para tomar dez passos fora todos os elevadores e para baixo com a perna esquerda, que se não for gerida voltou para o gadget e repetiu a operação até que eu olhei para a chave (e que é deixado perna
parecia anunciar algo de seu futuro dogmática).

Meu pai costumava repetir o famoso aforismo que "parentes não são escolhidos, os amigos são escolhidos." Enquanto há bom, regular e ruim em todas as famílias em relação ao seu tamanho, sempre senti uma certa quantidade de pena que havia se infiltrado em nosso caráter como características sinistras. Uma vez, uma das minhas tias me disse que muito jovem Che deliciou com um sofrimento para os animais e, o maior, insistiu em que a morte (dos outros) não foi tão ruim, afinal, e que, neste contexto, antecipou a definição de Woody Allen: "Morrer é como adormecer sem se levantar para fazer xixi."

Este último pode parecer engraçado e espirituoso quando se trata de áreas de cinema, foi uma tragédia para uma capital matou centenas de Che que finalmente mudou essa definição de que "o verdadeiro revolucionário deve se tornar uma máquina assassina fria." E tudo para o passatempo de Stalin, Pol Pot, Hitler e Castro neste planeta que na ânsia de fazer o proverbial "homem novo" torturado, humilhado, mutilados e assassinados milhões de seres humanos.

E pensar que Cuba, apesar da maldade de Batista, foi maior renda per capita do país na América Latina, foram destaque nos setores de açúcar mundial, refinarias de petróleo, cervejarias, plantas minerais, destilarias, licores prestígio internacional, teve televisões, rádios e geladeiras em relacionar a população como nos Estados Unidos, ferrovias de grande conforto e extensão, hospitais, universidades, teatros e jornais de alto nível, de renome científico e associações culturais, as siderúrgicas, comida turbinas, porcelana e têxteis. Tudo antes que Che foi ministro da Indústria, durante o desmantelamento era ultrajante. A moeda cubana negociado na paridade com o dólar, antes de Che foi presidente do banco central.

Como poderia ser de outra forma Che começou sua carreira como inveterado peronista. Lembrese que a política nazifascista de Perón Argentina mergulhou no pântano que ainda não se recuperou e, entre outras coisas escreveu em 1970 que "Se a União Soviética tinha sido capaz de nos apoiar em 1955, poderia me tornarse primeiro continente de Fidel Castro ", e quando ele estava no poder, em 1947, gritou:" Vamos levantar garfos adversários suspensas em todo o país "e, em 1955, ele disse que" o inimigo, não há justiça ".

É inaceitável que qualquer um com metade de um cérebro segurar que a educação em Cuba é aceitável uma vez que, por definição, um regime tirânico requer domesticação e só pode oferecer lavagem cerebral e doutrinação (e livros prestes a ser escrito com lápis que demonstra para a próxima ninhada, dada a escassez de papel). Da mesma forma, parece que ainda existem algumas mentes distraídas que não foram informados das ruínas, a miséria e as canetas que transformaram o sistema de saúde em Cuba e só mantém uma clínica na janela para impressionar cretinos.

Espero que aqueles que ainda usam os símbolos do Che como uma graça perceber que este é o mais sombrio mórbida piada, e patético de todos aqueles que pode acontecer a um ser humano. É o mesmo que manter a imagem da suástica escuro como um sinal de paz.

O Autor:
Alberto Benegas Lynch (h) é presidente da Seção de Economia da Academia Nacional de Ciências, na Argentina. É doutor em Economia e doutorado em Ciências de Gestão. Também membro da Academia Nacional de Ciências Econômicas. Ele é o autor de onze livros e mais quatro na colaboração e ensinou por 35 anos em universidades da Argentina e no exterior. Seus livros incluem prólogos do Prêmio Nobel de Economia James M. Buchanan, o exsecretário do Tesouro do Governo dos Estados Unidos, William E. Simon, Prêmio Nobel de Economia FA Hayek e JeanFrançois Revel, membro da Academia Francesa. Duas vezes um membro da diretoria da Sociedade Mont Pelerin e foi assessor econômico BCBA, a Câmara de Comércio, da Sociedade Rural Argentina e do Conselho Americano de Comércio Argentina e Produção. Lecionou seminários e palestras no Canadá, Estados Unidos, Áustria, Suíça, Espanha, Austrália, Coreia do Sul, a República da China e na maioria dos países latinoamericanos. .