O indivíduo e a sociedade: Política não
é coisa de idiota
Mario Sergio
Cortella – Sabe, Renato, ao pensar neste nosso encontro, eu
me dei conta de que a
ideia para esta conversa surgiu quando fiquei pensando
no conceito de idiota.
Renato Janine
Ribeiro – E você se lembrou de mim...
Cortella – Brincadeira à parte,
lembrei sim, mas em razão de sua formação filosófica que possibilita uma reflexão
particularmente interessante de como lidar com nosso tema. Esse termo aparece
em comentários indignados, cada vez mais frequentes no Brasil, como “política é
coisa de idiota”. O que podemos constatar é que acabou se invertendo o conceito
original de idiota, pois a expressão idiótes, em grego, significa
aquele que só vive a vida privada, que recusa a política, que diz não à política.
No cotidiano, o que se fez foi um sequestro semântico, uma inversão do que
seria o sentido original de idiota. O que você pensa a respeito da retomada
desse conceito como aquele que vive fechado dentro de si e só se interessa pela
vida no âmbito pessoal? Sua expressão generalizada é: “Não me meto em política”.
Como você vê essa postura?
Janine – Vejo uma coisa meio
paradoxal hoje. Por um lado, gosto muito de nosso tempo porque
estamos vivendo o período de maior liberdade de toda a história. Nunca antes,
na história deste mundo, houve tanta liberdade política e pessoal. Metade da
humanidade se expressa, se organiza, vota, tem a orientação sexual de seu
agrado. Logo, dessa perspectiva, a política se expandiu muito. Tanto é assim
que atualmente há certa convergência de conceituação entre política e
democracia. Quando os teóricos definem uma ou outra, dizem que as duas passam
pela fala, pela conversa, pelo diálogo. Elas se opõem às ditaduras porque
nestas não há liberdade de expressão. Daqui a um tempo é possível que predomine
a ideia de que não há política que não seja democrática, e então talvez não se
ouça mais falar em política stalinista, em política ditatorial etc. Talvez se
ache que uma “política ditatorial” é uma contradição... Esse é o aspecto positivo do mundo contemporâneo.
Por outro lado, o negativo – ou, pelo menos, preocupante – é
o desinteresse pela política, que você apontou. Quer
dizer, ao mesmo tempo
em que meia humanidade está se beneficiando de avanços democráticos,
boa parte das pessoas está enojada pela descoberta ou pelo avanço da corrupção
(aliás, é discutível se ela realmente aumentou ou apenas se tornou mais
visível).
Cortella – De fato, mas elas se
sentem assim em relação a um determinado modo de fazer política. Não
corresponde à ideia mais abrangente de política. Você tocou num ponto que é a
conexão entre liberdade, democracia e política. Vale lembrar que, para a própria
sociedade grega – nossa mãe antiga, idosa, agora um pouco desprezada –, não
haveria liberdade fora da política. Quer dizer, o idiota não é livre porque
toma conta do próprio nariz, pois só é livre aquele que se envolve na vida pública,
na vida coletiva.
Janine – Mas para nós, modernos, a liberdade pessoal
é fundamental. Isso pressupõe uma sociedade muito mais diversificada do que a
grega ou do que qualquer outra. Até 200 anos atrás, toda sociedade exigia de
seus membros uma conformidade religiosa, e até uma
conformidade alimentar, para subsistir – mesmo entre os gregos era assim. Já a
nossa sociedade admite uma diversidade fabulosa: pode-se jantar no restaurante
indiano sem ser hinduísta, ou no italiano sem ser católico-romano. Tais escolhas não
implicam necessariamente uma postura social ou política. Esse avanço da vida
pessoal, que é o que você está falando do idiótes,
realmente é entendido por nós como algo positivo, e nos melhores momentos
conseguimos fazer com que haja convergência entre liberdade política e
liberdade pessoal.
Cortella – Claro, a liberdade pessoal é necessária. O
avanço da noção de indivíduo, desde a Renascença, foi decisivo para o
desenvolvimento da sociedade como a conhecemos. Contudo, o individualismo se
transformou em obsessão em vários momentos, o que é especialmente evidente na
substituição do indivíduo pelo individual – entendido como exclusivo, e não como
identidade. Até quando você evoca a possibilidade de eu
ter minha orientação sexual, religiosa ou alimentar, existe aí uma determinação
– para usar um termo antigo d e Marcuse – da indústria cultural, da ideologia da sociedade industrial, que cria
alguns padrões de comportamento. De fato, algumas pessoas (aquelas com mais
condições econômicas ou mais autonomia intelectual) podem fazer escolhas mais
livres. Eu posso ir a um restaurante indiano sem ser hinduísta ou indiano; posso frequentar um culto sem praticá-lo.
Mas também sou constrangido – conscientemente ou não – a uma série de práticas
que suponho serem minhas escolhas no mundo do consumo, da
indústria cultural, mas que não são realmente minhas. Você considera que esse é
um traço característico do moderno, isto é, de uma ideologia cujas plataformas
são mais eficazes do que as de outros tempos?
Janine – Sim, no sentido de que já não é preciso
matar pessoas, levá-las à fogueira ou ameaçá-las para conseguir que os
comportamentos se ajustem ao que é socialmente desejável. Nesse quesito, acho
que temos um misto de avanço e de recuo. Quer dizer, é ótimo que ninguém seja
morto por divergir das correntes dominantes na política ou mesmo no
comportamento, mas também é preocupante pensar que somos governados por
determinações das quais mal temos consciência. Uma discussão interessante a
esse respeito se levantou, quando se aprovou em São Paulo a lei limitando o uso
do tabaco em público. Muita gente a questiona de uma forma marota, mas, na
verdade, o que a lei proíbe é que o indivíduo terceirize a sua fumaça. Não se
proíbe ninguém de fumar, mas de fazer o outro aspirar o seu fumo.
Cortella – A proibição visa evitar que não fumantes
sejam constrangidos
pelos fumantes.
Janine – Mas há gente que questiona: “A lei pode me
impedir de fazer mal a mim? Pode determinar que eu não fume porque isso fará
mal à minha saúde?”. Ora, sinto vontade de responder: “Mas quem disse que você
escolheu tão livremente fumar? Quem disse que não houve uma
propaganda maciça para levar você a escolher fumar (ou a escolher comida
gostosa, escolher engordar)? Que liberdade é essa?”. Você tem razão, Mario,
quando afirma que somos alvo de n constrangimentos. Por
isso, penso que a resposta ideal à sua primeira pergunta poderia ser: A política
seria uma maneira de lançarmos luz sobre essas teias invisíveis que nos dominam
e tentarmos controlá-las.
Cortella – A política é vista aí como convivência
coletiva mesmo. Quando se poderia imaginar que o conjunto da sociedade
aceitaria a interdição do uso do tabaco em determinados espaços? Ou mesmo a
limitação do uso dos carros particulares em algumas cidades em dias e horários
específicos, ou ainda de fazer ruído a partir de determinada hora, mesmo que
moremos cada um em sua própria domus, ou seja, em sua casa?
Mas a questão é que não temos domus, só temos con-domínios. Viver é conviver, seja na cidade,
ainda que em casa ou prédio, seja no país, seja no planeta. A vida humana é condomínio. E só existe política como capacidade de convivência exatamente em razão do condomínio. Daí o indivíduo
pergunta: “Mas e meu direito de sair com meu carro quando quiser, ou de fazer
ruído até a hora que eu desejar?”. Outro dia, eu voltava de Campinas para São
Paulo pela rodovia dos Bandeirantes, e na frente havia um caminhão-baú, desses
fechados e grandes, ostentando, na traseira, aquela frase obrigatória para
algumas empresas: “Como estou dirigindo?”. Mas ele deu sequência à frase,
assim: “Como estou dirigindo? Mal? Dane-se, o caminhão é meu”. Essa lógica “do
caminhão é meu” significa “eu faço o que quero, sou livre”. Ora, esse exercício
da liberdade como soberania é algo que se aproxima da ideia da idiótes. Não sou soberano. Entretanto o indivíduo
afirma: “Eu sou soberano sobre mim mesmo”. Mas ser soberano sobre si mesmo não é
política. Ou será que é?
Fonte: POLÍTICA
Para não ser idiota
Mario Sergio Cortella
Renato Janine Ribeiro
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