A favor da vida, a Política que faz bem.
Cortella – Sabe, Renato, estive aqui fazendo uma associação de um ponto de nosso último tópico, o confronto, com a noção de colapso que você explorou antes. Isso me levou a uma palavra que atualmente pouco usamos, e que antes mencionei, ao falar de “horizonte adversário”, que é agonia. Quando você falou em colapso, pensei em uma sociedade que agoniza em várias frentes. Existe a luta que se trava a favor e a luta que se trava contra. Quem ou o que luta a favor é protagonista; quem ou o que luta contra é antagonista. Muitas vezes, temos a política como antagonista da nossa convivência livre e coletiva. Penso que temos que ser protagonistas. Sem romantizar a questão em excesso, creio que parte da minha possibilidade de felicidade está em eu ser protagonista da política. Ou seja, não ser nem negligente, nem leniente, não ser alguém que deixa de participar, no meu nível de possibilidade e autonomia, fazendo a escolha por um partido, ou pelo movimento de uma ONG, no sindicato, no clube que frequento etc. Mas é importante que eu não seja antagonista da minha própria felicidade. Ser, portanto, protagonista político. Gostaria de usar uma expressão que nos era
muito cara na década de 1960: política faz bem. Nós nos sentíamos vivos. E sentir-se vivo é saber que a corrupção é algo que não se deseja e, por isso, deve ser empreendida uma ação para que ela deixe de existir. Sentir-se vivo é também sentir-se participante Em 1984, antes da campanha das Diretas Já, saiu uma passeata da PUC-SP que se juntou a outros grupos que seguiam em direção à Praça da Sé. Nós carregávamos um caixão da ditadura (tenho uma foto dessa cena até hoje).
Estávamos habituados a fazer passeatas e, nesse dia, tive uma pequena “frustração”, porque não houve oposição no caminho. Encontramos várias viaturas da polícia que estavam protegendo o caminho para passarmos.
Janine – O governador então era Franco Montoro. Cortella – Isso mesmo. Qual foi a sensação? Nós seguimos da rua Monte Alegre para debaixo do Minhocão, passamos pela avenida São João – e, no
caminho, viaturas da polícia fechavam o trânsito de veículos –, depois fomos pela Duque de Caxias, perto do Largo do Arouche, e durante todo o trajeto a passeata pôde seguir tranquila. Perdeu a graça? Lógico que não! Porque a graça era justamente ter conseguido aquilo. Janine – Era um êxito. Cortella – Existia ali a ideia de que a política mantém a pessoa viva. Eu, Cortella, não estava mais vivendo sob a ditadura; assim como um jovem, hoje, já não sofre uma opressão que impeça a democracia. Precisamos, então, encontrar a fonte de vida na política em outros elementos, e creio que evitar o colapso do indivíduo, da sociedade, da história é um bom motivo, um elemento essencial. Afinal de contas, ainda podemos evoluir para óbito...
Janine – Queria falar um pouco dessa ideia de felicidade a que você se referiu há pouco. Felicidade é um complexo de ideias. Vida social ou vida política fazem parte da minha felicidade? Sem dúvida. Mas até que ponto? Geralmente, faz parte de certa sabedoria de vida o indivíduo não deixar o que é externo afetar demais a sua vida. Ou seja, faz parte da sabedoria de vida a utilização de uma
espécie de vacina, inclusive contra a política, contra tudo aquilo que não depende dele. Certamente o fator aleatório tem um peso considerável na nossa vida. Eu e você, Mario, já ocupamos cargos de confiança do poder público e sabemos que, nessa posição, a pessoa fica à mercê de muitas conjunturas. Alguém pode falar uma frase tola, você pode perder seu cargo porque foi
ineficiente, ou até porque foi eficiente demais... Tudo é possível. Em suma, quanto mais você se abre para o mundo, mais você fica à mercê. Daí que, como o estoicismo nos adverte há cerca de 2 mil anos, seja prudente não se deixar levar demais pelo caráter oscilante da vida externa. Em nossa discussão, estamos timidamente acreditando que uma articulação do social ou do político possa contribuir para nossa felicidade. A ideia de Felicidade Interna Bruta (FIB) trabalha com a expectativa de contribuir positivamente para a nossa felicidade ou de, pelo menos, reduzir os fatores de
infelicidade. Hoje, reduzir os fatores de infelicidade é, por exemplo, diminuir a degradação ambiental, e trazer elementos de felicidade é garantir a sustentabilidade. Assim, um investimento ecológico, dependendo de sua escala, pode apenas reduzir a infelicidade ou contribuir positivamente para a felicidade. Esse ponto depende do grau de utopia em que se está apostando. Se acreditarmos que conseguiremos estabelecer o que hoje chamamos de sustentabilidade e 50 anos atrás talvez chamássemos de uma sociedade socialista (são duas coisas diferentes, mas enfim)...
Cortella – Como ideal, não são diferentes. Janine – Tem razão. Talvez a sustentabilidade, o compromisso com a vida, tenha sucedido ao socialismo, que ser ia o compromisso com o mundo do
trabalho – algo importante, que permanece, mas menos abrangente do que a vida. Mas de todo modo, se acreditarmos na possibilidade de êxito de um desses projetos, acreditaremos também que nossa felicidade pessoal será fortemente beneficiada por isso. Isso não vai nos impedir de sofrer com uma separação ou com a morte de um ente querido, em absoluto, mas pode atenuar outras fontes
de sofrimento ou até nos equilibrar mais para enfrentar tais circunstâncias. O problema, em grande parte, é se vamos conseguir fazer isso. O risco do colapso está presente. Todas as épocas recearam o fim do mundo, algum tipo de apocalipse. Mas a nossa é a primeira que tem evidências científicas para a possibilidade de que se extinga a vida humana, em prazo breve, pela devastação do planeta. Além
disso, nossa época é a primeira a manifestar uma crescente convicção de que podemos ser apenas um parêntese na história do mundo, do universo. Quando Deus era uma presença forte, quando conhecíamos menos a história do planeta e das espécies, podíamos pensar que éramos o coroamento da criação, que tudo teria sido feito para nós. Hoje, até evitamos pensar nessa questão. Vamos a um museu de ciências. Pensemos quantos bilhões de anos houve antes de nós e quantos deverá haver depois de nós: então nos perguntaremos por que, afinal, fazemos tudo o que fazemos. Se a espécie acabar, para que tanto som e fúria? Isso é diferente para quem acredita na vida eterna, mas essa
crença movimenta cada vez menos pessoas. No entanto, penso que um certo receio do colapso é positivo, porque pode ser um acicate para nossa ação. Um dos aspectos que mais nos motivaram em
nossa conversa foi o descaso com a dimensão pública ou política. Se pensarmos que o político não se restringe à política partidária, nem aos governos, mas diz respeito ao modo como a humanidade define seu destino, veremos que enfrentar o risco do fim do mundo é uma prioridade política. A construção da felicidade possível é uma boa pergunta, que leva em conta tanto o horizonte
para o qual nos movemos, e que sempre se afasta, quanto as ameaças que vemos pairando sobre nós e que precisamos enfrentar, em vez de fingir que não existem. Cortella – Isso é bom demais. Em outras palavras, hoje, o exercício da política nas suas múltiplas dimensões, por qualquer pessoa, é um projeto contra o biocídio. É realmente um projeto contra o biocídio, a favor da vida em mim,
no outro – da vida no planeta. Esse antibiocídio é um projeto muito mais amplo do que a minha vida exclusivamente individual. É uma recusa à ideia de que há uma banalidade na existência. Desse ponto de vista, para mim, ele é uma energia vital. Stephen Jay Gould, paleontólogo norte-americano já falecido, chegou a fazer algo que acho genial: calculou a massa das bactérias e dos humanos que
há no planeta. Pois a soma total da massa das bactérias é mais pesada do que a soma da massa dos seres humanos... Nem mesmo em termos de massa nós temos tanto significado em relação a outras formas de vida. A nossa antropolatria pode ser um pouco perigosa... Contudo, talvez essa admiração por nós mesmos seja um recurso do qual lançamos mão contra o colapso. Gosto muito quando Marx diz: “A humanidade nunca se coloca problemas que não possa resolver”. Afinal, a mesma situação que gera o problema, e a consciência dele, gera também os meios para resolvê-lo. Então, sem dúvida,
temos uma questão política que, no meu entender, é um projeto contra o biocídio, isto é, um projeto para afastar o colapso. Janine – Para concluir, eu estava pensando que somos herdeiros de uma
época em que a política era vivida como uma forma de oposição. Houve a guerra contra o fascismo – uma das coisas mais próximas do mal que já existiram na política, junto, claro, com outras formas de totalitarismo, como o stalinismo. Houve também toda uma interpretação do mundo pelo conflito
capital/trabalho, capitalismo versus socialismo etc. Mas, quando passamos à questão da vida, estamos perante uma situação em que todos somos perdedores ou todos somos ganhadores. Nossa sociedade pode ser muito individualista, mas seu destino se jogará em conjunto. Nas formas anteriores de pensar política, tínhamos situações em que alguém ganhava e alguém perdia. Não estou dizendo que esses dois lados somassem zero, ou seja, que um ganhava exatamente o que o outro perdia. O Estado do bem-estar social melhorou a distribuição de renda e a soma foi positiva. Já a maior parte das guerras gerou uma soma negativa, porque a destruição total foi maior do que aquilo que os
vencedores tomaram para si. Um exemplo banal: quando alguém furta o rádio de um carro, o estrago que faz no veículo é muito maior do que o dinheiro que ganhará do receptador. Agora, estamos numa época – já entramos nela, mesmo que nem todos estejam conscientes ou convictos disso – na qual importa saber que nesse novo jogo todos iremos ganhar ou, todos, perder. E o que discutimos sobre consenso e acordos me convence disso. Enquanto em várias questões – trabalhistas, previdenciárias, conflitos patrão/empregado, conflitos religiosos etc. – as pessoas adotam posições divergentes, já quando o que está em jogo é a vida (a vida no planeta, a nossa qualidade de vida nele), passamos a ter uma base mais firme para uma aproximação entre nós, para uma nova aliança. Cortella – Em tal circunstância, nosso inimigo, nosso antagonista passa a ser o biocídio. Assim precisamos estar conscientes, atentos aos efeitos de nossos atos, desejosos de estabelecer laços de convivência para preservar a vida. A política não pode ser anulação, tem de propiciar possibilidades de convivência.
É por isso que, se alguém me pergunta: “Política?”, eu respondo: “Sou a favor”. “A favor de quê?” Aí começa a política. E ouça o que vamos falar...
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