A sociedade de status e o capitalismo
Antes de responder a esta pergunta, é necessário distinguir melhor a característica inconfundível do capitalismo em contraste com a da sociedade de status.
É muito frequente comparar os empresários e capitalistas da economia de mercado com os aristocratas da sociedade de status. A base da comparação está na existência, em ambos os grupos, de homens relativamente ricos em contraste com as condições relativamente limitadas dos outros homens. Contudo, o uso desta metáfora impede que se compreenda a diferença fundamental entre os ricos aristocratas e os ricos “burgueses” ou capitalistas.
A fortuna de um aristocrata não é um fenômeno do mercado; não se origina do fornecimento aos consumidores e não pode ser diminuída nem mesmo afetada por qualquer ação da parte do público. Ela provém da conquista ou da liberalidade por parte de um conquistador. Pode extinguir-se pela revogação por parte do doador ou pela perda violenta por parte de outro conquistador, ou pode ser dissipada por esbanjamento. O senhor feudal não atende consumidores e está imune aos dissabores da ralé.
Os empresários e capitalistas devem sua fortuna às pessoas que, enquanto fregueses, sustentam os seus negócios. Eles a perdem, inevitavelmente, assim que outras pessoas os superam num atendimento aos consumidores de forma melhor e mais barata.
A finalidade deste ensaio não é descrever as condições históricas que criaram as instituições de casta e status a subdivisão das pessoas em grupos hereditários com diferentes camadas, direitos, reivindicações e privilégios ou incapacidades legalmente justificadas.
A única coisa que conta para nós é o fato de a preservação dessas instituições feudais ser incompatível com o sistema do capitalismo. A abolição dessas instituições e o estabelecimento do princípio de igualdade perante a lei removeram as barreiras que impediam a humanidade de desfrutar de todos os benefícios que o sistema de propriedade privada dos meios de produção bem como de empresa privada torna possível.
Numa sociedade baseada em camadas, status ou castas, a situação de vida do indivíduo é fixada. Ele nasce em certa categoria e sua posição na sociedade é rigidamente determinada pelas leis e costumes que designam a cada membro de sua classe privilégios e deveres ou incapacidades definidas.
Excepcionalmente, a boa ou má sorte poderá em casos raros elevar um indivíduo a uma camada superior ou rebaixá-lo a uma inferior. Porém, via de regra, as condições de cada membro de uma ordem ou camada definida somente poderão melhorar ou piorar com uma mudança nas condições de todos os seus membros. Fundamentalmente, o indivíduo não é o cidadão de uma nação; ele é membro de um estado (Stand, état) e somente como tal indiretamente integrado no corpo de sua nação. Ao entrar em contato com um compatriota pertencente a uma outra camada, não se sente em comunhão com ele.
Percebe apenas o abismo que o separa do status da outra pessoa. Essa diferença refletiu-se na linguística bem como nos usos indumentários. Sob o ancien regime, os aristocratas europeus falavam, de preferência, francês. O terceiro estado usava o vernáculo enquanto as camadas inferiores da população urbana e os camponeses apegavam-se aos dialetos locais, jargões e gírias quase sempre incompreensíveis para as pessoas cultas. As várias camadas vestiam-se de modo diferente. Ninguém deixava de reconhecer a qual camada pertencia até um estranho.
A principal crítica que os enaltecedores dos bons velhos tempos dirigem contra o princípio de igualdade perante a lei é a de que ele aboliu os privilégios de camada e dignidade. Segundo eles, tal princípio “atomizou” a sociedade, dissolveu suas subdivisões “orgânicas” em massas “amorfas”. Essas massas agora dominam, e seu materialismo mesquinho superou os padrões nobres das épocas passadas. O dinheiro é rei. Muitas pessoas sem valor desfrutam de riquezas e abundância, ao passo que pessoas de mérito e valor seguem de mãos vazias.
Esta crítica tacitamente supõe que sob o ancien regime, os aristocratas se distinguiam por sua virtude e que deviam sua posição e rendimentos à superioridade moral e cultural. Torna-se muito necessário
pôr fim a esta fábula. Sem expressar qualquer julgamento de valor, o historiador não pode deixar de enfatizar que a alta aristocracia dos principais países europeus era descendente dos soldados, cortesãos e cortesãs que, nas lutas religiosas e constitucionais dos séculos XVI e XVII, sabiamente puseram-se do lado dos que permaneceram vitoriosos em seus respectivos países.
Se, por um lado, os conservadores e os inimigos “progressistas” do capitalismo discordam em relação à avaliação dos antigos padrões, por outro, eles concordam plenamente em condenar os padrões da sociedade capitalista. A seu ver, quem conquista fortuna e prestígio não são as pessoas de reconhecido valor, mas sim as frívolas e inúteis. Ambos os grupos parecem desejar a substituição dos métodos manifestamente injustos vigentes sob o capitalismo laissez-faire por métodos mais justos de “distribuição”.
Ora, nunca se contestou que, no capitalismo sem obstáculos, saem se melhor aqueles que, do ponto de vista dos padrões de valores eternos, devem ser os preferidos. O que a democracia capitalista de mercado faz não é premiar as pessoas de acordo com seus “verdadeiros” méritos, valor próprio e dignidade moral. O que torna um homem mais ou menos próspero não é a avaliação de sua contribuição a partir de um princípio “absoluto” de justiça, mas a avaliação por parte de seus semelhantes, que aplicarão somente o critério de suas necessidades, desejos e objetivos pessoais. O sistema democrático de mercado é exatamente isto. Os consumidores são supremos — isto é, soberanos. Desejam ser satisfeitos.
Milhões de pessoas gostam de beber Pinkapinka, uma bebida preparada pela multinacional Pinkapinka Company. Milhões gostam de histórias de detetive, filmes de mistério, jornais que trazem histórias em quadrinhos, touradas, lutas de boxe, uísque, cigarros e gomas de mascar. Milhões elegem governos ávidos para armar e patrocinar a guerra. Assim, os empresários que fornecem de forma melhor e mais barata todas as coisas necessárias à satisfação desses desejos tornam-se ricos. O que conta na estrutura da economia de mercado não são os julgamentos acadêmicos de valor mas as avaliações verdadeiramente manifestadas pelas pessoas ao comprar ou deixar de comprar.
Para quem reclama da injustiça do sistema de mercado, cabe somente um conselho: se quiser enriquecer, tente satisfazer o público oferecendo-lhe algo mais barato ou de que ele goste mais. Tente superar a Pinkapinka fabricando uma nova bebida, A igualdade perante a lei lhe dá o poder de desafiar qualquer milionário. Será — num mercado não sabotado por restrições impostas pelo governo — culpa exclusivamente sua se você não conseguir sobrepujar o rei do chocolate, a estrela de cinema e o campeão de boxe.
Mas, se você, em vez das riquezas que talvez conseguisse ao escolher o ramo do vestuário ou do boxe profissional, preferir a satisfação obtida ao escrever poemas ou filosofia, está livre para agir assim. Então, com certeza, você não ganhará tanto dinheiro quanto os que servem a maioria das pessoas. Porque essa é a lei da democracia econômica de mercado. Aqueles que satisfazem um número menor de pessoas conseguem menos votos — dinheiro — do que os que satisfazem os desejos de mais pessoas, na caça ao dinheiro, a estrela de cinema supera o filósofo; os fabricantes de Pinkapinka superam o compositor de sinfonias.
É importante entender que a oportunidade de competir pelas recompensas que a sociedade tem para distribuir é uma instituição social. Ela não pode remover ou aliviar as desvantagens inatas com as quais a natureza discriminou muitas pessoas. Não pode alterar o fato de que muitos nascem doentes ou se tornam deficientes no correr da vida. O equipamento biológico do homem restringe de forma radical o campo em que ele irá agir. A classe daqueles que têm condições de pensar por si está nitidamente separada da classe dos que não têm essas condições.
Fonte: V947i von Mises, Ludwig.
A Mentalidade Anticapitalista / Ludwig von Mises. --
São Paulo : Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.
125p.
Tradução de: Carlos dos Santos Abreu
1. Capitalismo 2. Liberalismo 3. Economia 4. Liberdade
5. Socialismo I. Título.

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