Carta inédita, pinçada do acervo de 3 mil
documentos do Memorial Visconde de Mauá, revela que defendia a indenização de
ex-escravos, a reforma agrária e o sufrágio feminino. “Fui informada por papai
que me collocou a par da intenção e do envio dos fundos de seo Banco em forma
de doação como indenização aos ex-escravos libertos em 13 de maio do anno
passado, e o sigilo que o Snr. pidio ao prezidente do gabinete para não
provocar maior reacção violenta dos escravocratas.” Lidas assim, como frases
soltas extraídas de uma carta qualquer, que pela ortografia sabe-se antiga,
essas poucas linhas dizem quase nada digno de nota para a historiografia
brasileira. Mas, se colorirmos essa misteriosa preocupação com nome e
sobrenomes, títulos e brasões, temos diante de nossos olhos algo capaz de
reescrever um dos mais importantes capítulos da História do Brasil.
“Informada”, quem se diz, é ninguém menos do que Isabel Christina Leopoldina
Augusta Michaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Orleans e Bragança, a princesa
Isabel (1846 – 1921). O pai a que se refere é o imperador D. Pedro II
(1825-1891). Os fundos doados para serem usados como indenização aos
ex-escravos seriam recursos do Banco Mauá, que a monarquia usaria para assentar
os ex-cativos em terras capazes de produzir seu sustento após a assinatura da
Lei Áurea em 13 de maio de 1888. Sim, a contar pelo texto, a monarquia tinha
esse projeto. Um exame grafológico realizado pela especialista Fátima Argon,
chefe do Arquivo Histórico do Museu Imperial, em Petrópolis, no estado do Rio
de Janeiro, garante a autenticidade da assinatura da carta em que constam essas
revolucionárias linhas: “Muito do Coração, Isabel”. Afirma à estudiosa: “Creio
que realmente se trata da assinatura e da letra da princesa Isabel”. Endereçada
ao visconde de Santa Victoria, espécie de braçodireito de Irineu Evangelista de
Souza, o visconde de Mauá (1813 – 1889) a carta data de 11 de agosto de 1889,
portanto um ano e três meses após a Abolição da Escravidão no Brasil. E apenas
três meses e quatro dias antes da Proclamação da República, em 15 de novembro
de 1889. Por isso, entende-se a preocupação de Isabel com a “reacção violenta
dos escravocratas” frente a possibilidade de o governo indenizar os
ex-escravos. De forma quase intuitiva – se é que nos cabe dizer isso em uma
pesquisa histórica -, Isabel parece antecipar seu futuro e o de toda realeza na
frase imediatamente seguinte da carta que confidentemente remete ao amigo Santa
Victoria. “Deos nos proteja si os escravocratas e militares saibam deste nosso negócio
pois seria o fim do actual governo e mesmo do Império e da caza de Bragança no
Brazil”, escreve a princesa. O que se pode indagar, dessa temerosa assertiva, é
se o golpe militar que implantou a República no Brasil não teria sido
antecipado pelos tais forças escravocratas às quais a princesa se refere. A
historiadora Keila Grinberg, professora na Uni-Rio e na Universidade Cândido
Mendes, considera um equívoco falar em antecipação. “Não havia uma data marcada
para a Proclamação da República”, pondera a especialista. No entanto, ressalta
que um dos elementos mais importantes para atestar a riqueza da carta, segundo
ela, residiria no fato de ratificar a tese, hoje clássica, de que a Abolição
apressou a República. E acrescenta: “Esta carta confirma essa tese de que o
golpe republicano teve o apoio dos escravocratas”. Se libertar os escravos,
para a elite do século XIX, já soava como uma afronta, o que dizer da proposta
de indenizá-los pelos anos de cativeiro? Isabel parecia apostar na vitória de
seus propósitos. “Nosso amigo Nabuco, além dos snres. Rebouças, Patrocínio e
Dantas, poderam dar auxílio a partir do dia 20 de Novembro quando as Camaras se
reunirem para a posse da nova Legislatura.” E afirma, confiante: “Com o apoio
dos novos deputados e os amigos fiéis de papai no Senado será possível realizar
as mudanças que sonho para o Brazil!" Autor de uma das mais esclarecedoras
teses sobre a figura histórica da princesa Isabel, o historiador Eduardo Silva,
pesquisador da Fundação Casa Rui Barbosa, vem defendendo, desde a publicação de
sua obra As camélias do Leblon e a Abolição da Escravatura, em 2003, um perfil
mais aguerrido e revolucionário para a princesa. Na contramão da historiografia
que insiste em apresentá-la como uma figura meramente representativa na sanção
da Lei nº 3.353, a Lei Áurea, que teria assinado o revolucionário documento
apenas porque o imperador estava ausente, o especialista afirma que tal
passividade não combina com uma mulher que apóia, com a intermediação de
“amigos” abolicionistas, como Joaquim Nabuco e André Rebouças, as atividades de
um E não era um quilombo qualquer. Segundo Eduardo Silva havia dois modelos de
ação quilombola. O “tradicional” era o de resistência à escravidão, a que ele
chama de “quilomborompimento”, que traduzia a tendência dominante de servir de
esconderijo. O outro, ao qual se filia o Quilombo do Leblon, localizado na Zona
Sul do Rio de Janeiro, é o “quilombo abolicionista”. Nesse, de acordo com o
historiador, as lideranças são muito bem conhecidas, os cidadãos têm
documentação civil em dia e são, o que ele destaca como elemento principal,
“muito bem articulados politicamente”. O que dizer de uma princesa que tem como
amigos os amigos dos quilombolas? A carta reforça a imagem de uma princesa
Isabel bem diferente, que já aparecia no livro de Eduardo Silva. “Não estranho
o fato de uma princesa que mantinha ligações com um quilombo ser também uma
defensora da indenização de ex-escravos”, comenta o autor. “Gostaria de
ressaltar a intimidade com que ela se dirige a vários conhecidos
abolicionistas. Na carta, ela diz “Nosso amigo Nabuco”, e isso para mim é muito
significativo”, analisa Eduardo Silva. Ao agradecer ao visconde de Santa
Victoria pela forma desprendida com que fez a doação que “significou mais de
2/3 da renda dos bens” que a ele pertenciam, Isabel afirma: “Com os fundos
doados teremos oportunidade de collocar estes exescravos, agora livres, em
terras suas próprias trabalhando na agricultura e na pecuária e dellas tirando
seos próprios proventos”. Esse trecho, especialmente, surpreendeu a
historiadora Keila Grinberg: “Sabemos que André Rebouças tinha um projeto de
reforma agrária. Mas sinceramente eu desconhecia que a princesa falava
abertamente sobre o assunto”. Não era somente sobre indenização de ex-escravos
e sobre reforma agrária que ela tratava. Na mesma e reveladora carta ao amigo
visconde, diz sonhar com novos tempos de mudança. “Não fiquemos mais no
passado”, escreve, referindo-se também à forma “honrada e proba” com que Mauá e
Santa Victoria “aceitaram a derrocada” do Banco Mauá em 1878. Pois, acrescenta
ainda em tom confiante, “o futuro será promissor, si os republicanos e escravocratas
nos permitirem sonhar mais hum pouco”. Sonhar? Exatamente com o que mais a
princesa sonharia? “As mudanças que tenho em mente o senhor já sabe, vão além
da libertação dos captivos”, escreve, para acrescentar: “Quero agora dedicar-me
a libertar as mulheres dos grilhões do captiveiro domestico, e isto será
possível atravez do Sufrágio Feminino (grifado por ela)!” Tamanha ousadia
permite-nos entrever um perfil de mulher muito distante – para não dizer
radicalmente oposto – ao da princesa Isabel que o brasilianista Roderick J.
Barman revela ao longo das celebradas 352 páginas de sua mais recente obra, Princesa
Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX. No Capítulo 6, intitulado “A aspirante a
imperatriz (1881 – 1889)”, mais especificamente na página 221, Barman afirma
que “enquanto morou na França, entre 1878 e 1881, d. Isabel não se envolveu
diretamente com o movimento pelos direitos das mulheres nem manifestou simpatia
por ele”. E acrescenta: “Estava longe de ser uma Nora disposta a fugir da casa
de boneca”. O estilo de vida que “refletia a autonomia mais ampla de que
gozavam as mulheres, particularmente no tocante à vida cotidiana”, e do qual a princesa
compartilhava, é descrito pelo comportamento de “ir sozinha às novas lojas de
departamento”, segundo ele, “algo que muito lhe agradava”. Sobre o estilo de
vida de Isabel e o modelo de casamento que levava com o conde d´Eu, Barman
afirma que “aos olhos do mundo, o casal se ajustava às expectativas
tradicionais”: “D. Isabel obedecia ao marido na administração de sua vida,
tanto pública como privada”. É verdade que, em carta posterior ao marido,
Isabel, segundo Barman, surge das entrelinhas como “membro mais forte do
casal”, cujas “atividade já não dependiam do consentimento prévio do marido”.
Mas essa ousadia de princesa estava muito, muito distante, da Isabel que se
revela na carta ao visconde de Santa Victoria. Nem mesmo o afastamento do
imperador D. Pedro II, que se tornara “menos grandioso e onipresente, decaindo
visivelmente”, já revelando uma saúde incerta, pareceu, aos olhos do
brasilianista, motivar Isabel a adotar posicionamentos mais aguerridos. “Tais presságios de mortalidade”, documenta ele
na página 227, “não motivaram d. Isabel a assumir um papel mais importante nos assuntos
públicos”. Chega a afirmar “Como ela explicou ao sogro, seu maior prazer era
cuidar dos filhos”, além da casa e do jardim. “A mulher dona de si”, que surge
apenas no Capítulo 7 do livro, somente se revelaria entre 1889 e 1891, mais
especificamente no exílio, e portanto após proclamada a República. Na carta ao visconde
essa mulher dona de si existia bem antes disso, já que o documento foi assinado
em 11 de agosto daquele ano. E obviamente que a adesão a ideais tão
revolucionários para a época – indenização de ex escravos, reforma agrária e
sufrágio feminino – não se forja de uma hora para outra. É uma construção de
longa duração. Sobre essa mudança na personalidade da princesa, o brasilianista
escreveu: “A partir de 15 de novembro de 1889, d. Isabel tornou-se muito dona
de si, embora, durante a longa viagem ao exílio, as perpesctivas não parecessem
nem claras nem promissoras”. Mas, uma única carta, de quatro páginas
manuscritas, é suficiente para pôr em questão análises assentadas em extensa bibliografia e vasta consulta a
documentos? A carta de Isabel ao visconde deve ser vista como indício de que
algo ainda precisa ser aprofundado nos estudos sobre a Abolição. Até porque,
algumas questões presentes no documento carecem de esclarecimento. Outro
biógrafo da princesa, o historiador Robert Daibert Junior, autor de Isabel, “a
redentora dos escravos”: uma historia da princesa entre olhares negros e
brancos (1846 – 1988), não tem dúvidas sobre a importância da carta para os
estudos sobre a escravidão no Brasil. “A carta, certamente, fará parte de minha
tese, em fase final de preparação na UFRJ”, admite. Mas seu conteúdo chegaria a
contrariar a historiografia que atribui ao negro o mais importante e
significativo papel de protagonista da Abolição? Segundo ele, ela é um
instrumento para “pensar a extinção da escravidão por meio de forças e
motivações diversas”. Pois, se “não há dúvida de que os escravos foram agentes
do processo, e a historiografia avançou bastante neste sentido, algumas
pesquisas chegam a ser cansativas, pois os óculos da estratégia chegaram a cegar
alguns historiadores, presos a um certo determinismo”. Para Daibert, é hora de
redimensionar as questões sobre o tema. “Passamos de uma historiografia
tradicional, extremamente apegada a um culto à princesa Isabel como responsável
única pela Abolição, para um lugar oposto. Infelizmente, em alguns discursos mais
inflamados, ainda ouvimos expressões que qualificam o 13 de Maio como farsa e
engodo. O problema todo está na polarização: Isabel ou Zumbi? Como se
tivéssemos que escolher um lugar, um posicionamento político de extrema direita
ou de extrema esquerda”. De que a carta sugere novas perpesctivas para a abordagem
do tema pelos historiadores, não resta dúvidas. Mas certamente algumas questões
ainda precisam ser aprofundadas.
Fátima Argon destaca a procedência dos
recursos doados por Mauá e Santa Victória para a indenização dos ex-escravos.
“Seria necessário consultar a correspondência de Mauá”, afirma. Outra questão
será decifrar, conhecer mais de perto, o perfil do visconde de Santa Victória. A
estudiosa Fátima Argon disse ainda ter sentido certo estranhamento diante do
fato de a princesa redigir “papai” e não “papae”, como era o costume na época.
Entretanto, dois elementos – além da análise da grafia da carta – garantem ao
documento a condição de autêntico. O primeiro deles é que foi assinada em agosto
de 1889”. O outro elemento, destacado pela especialista, se refere à datação da
carta: “Era coisa comum pôr hora depois da data, embora seja curioso que isso
apareça em francês”. No original, Isabel escreve: “Corte midi” (meio-dia). Daibert,
por sua vez, ao destacar como contribuições fundamentais do documento as
referências à indenização e ao sufrágio feminino, alerta para o fato de que” a
carta traz mais questões do que respostas”. E afirma que o
documento do acervo do Memorial Visconde de Mauá, compilado por gerações de parentes
e hoje mantido por seu tetraneto Eduardo André Chaves Nadehf, “nos leva a puxar
fios que não haviam sido pensados, mas que exigem muita pesquisa”. Lacunas à
parte, a doce Isabel de livros cujas teses já não se sustentam propôs mais para
o Brasil do que a República tem sido capaz de realizar nestes mais de cem anos
de sua existência.
*Textos grifados em vermelho, não
corresponde à forma correta da Língua Portuguesa contemporânea. Fonte: Revista
Nossa História Ano 3 / nº 31 - Editora Vera Cruz - maio 2006 http://negrolivre.blogspot.com.br/2011/11/o-lado-rebelde-da-princesa-isabel.html
http://negrolivre.blogspot.com.br/

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